segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: A INSUSTENTÁVEL SUJEIÇÃO DA LIBERDADE



"Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância."
(Simone de Beauvoir)


Era tudo tão perfeito, tão ajustado à cena perfeita.
Deveria ter desconfiado que tamanha perfeição só poderia ser produto de sua cabeça... uma enorme idealização de si para si. Magnânimo investimento afetivo. Investimentos, para a grande maioria das criaturas humanas, exigem retorno.
E, de repente, tudo ruiu. Ao aparecer o discrepante do outro, na cena perfeita, agora imperfeita, fechou-se na depressão que negava uma postura de enfrentamento de si.
Por competência, tinha a capacidade de pensar amadurecidamente.
Afinal, não se pode ter tudo. O pensar, frente ao desejo, traz o imperativo de um decepar pedaços da alma, se necessário.

Amar é possível, desde que se cumpra a exigência, no negativo, do próprio verbo: amo porque me ama - um condicional.
O amor incondicional, crendo-se que exista, é atributo de criaturas míticas, normalmente não encontradas no cotidiano mundano dos homens.
Narciso ama o espelho. Narciso, o cotidiano dos homens.
O condicional, no caso do Amor, caminha em direção à posse - garantia do espelho.
A posse, já Amor de si, cria o destrutivo campo do ciúme doentio - absoluta neutralização da possibilidade de existência da cena do outro. Amar na sujeição do outro. Amar não o outro, mas o objeto que completa o que ama - Prometeu buscando insustentavelmente a autobastância.
Autobastar-se é ilusão dilaceradora, grande objetivo inalcançável pela criatura humana.
Ideia prima da frustração a autobastância, frenética, exigente, eterna enquanto durar o ser que a pensa.
O Amor nasce do Ódio.

Não somos seres míticos do incondicional. 


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

Nenhum comentário:

Postar um comentário