quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: KIMONO (NOTAS SOBRE UMA MODELAGEM)



"Para a psique humana, não há espelho no presente."
(Fabio Herrmann)

Com uma pequena lágrima a escorrer pelo rosto, como pequena que era, anunciou que as coisas não estavam bem. Lágrima contida dela contida. Corajosamente reconheceu o que a maquiagem do quotidiano se esforça em esconder: ela não tinha lugar dela. Na casa dos pais sentia-se estrangeira, buscando esconderijos que a não denunciassem, o que a denunciava a si. Na casa do namorado sentia-se parte da mobília, uma peça morta em uma relação morta - ali, ela acreditava no milagre da ressurreição de Lázaro.
Foi tomada por questão que parecia estranha a ela própria: revelava a insatisfação ou continha-se, quieta, a sobreviver "com aquela coisa que apertava o peito"?
Passara algumas noites assim, com essa questão a atormentá-la, tal qual fantasma irritadiço que assombra a própria sombra - sombra de fantasma, no caso. Como exorcismo, se pôs a fazer alguns kimonos. Ela sabia fazer kimonos. Aprendeu sozinha. Fazer kimonos era só dela. Kimono-ela, que um dia foi, sem se fazer possível agora, no amanhã que poderia ser. Um kimono-ela, marca de sucesso, marca de lugar, que poderia ter sido (independente).

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1. Gueixas são mulheres japonesas que estudam a tradição milenar da arte, dança e canto, e se caracterizam distintamente pelos trajes e maquiagem tradicionais. Contrariamente à ideia popular, as gueixas não são um equivalente oriental da prostituta. A relação da gueixa com seu "danna" (seu patrono) - que incluiu o absoluto ato de agradar -, atinge um grau de complexidade que excede a simplista ideia de passividade. A condição de gueixa é cultural, simbólica e repleta de status, delicadeza e tradição. A gueixa é mistério, a gueixa fascina.

2. Kimono é uma vestimenta tradicional japonesa. A palavra kimono significa "coisa para vestir". O kimono veste o corpo, portanto, o revela. O corpo vestido é o avesso do corpo nu, do corpo natural. O kimono dá lugar ao corpo. Fazer kimono é criar lugar.

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Ao final, tentando dar conta e dar-se conta da questão, entre uma taça e outra de vinho, fez cinco kimonos... vendeu todos.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).