sábado, 19 de outubro de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: ENTRE O CAÓTICO E O NIRVANA



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 07 de maio de 1934 encontra-se a anotação: "Buda de marfim e cachorro de pedra do Fo segunda".


Freud tinha dois budas de marfim - ambas figuras bastante raras, dos séculos XVI-XVII, originárias da fronteira birmanesa da Tailândia. A figura em pé representa o Buda penitente e andarilho; o outro, sentado com a mão direita estendida em direção ao chão, é o Buda que toca a terra.

Inicialmente como tentativa de largar os charutos, como ato de deslocamento, Freud tinha um apreço especial, afetivamente carregado, por seus objetos antigos - a analogia com a ideia de uma arqueologia da mente encontrava-se representada em seu escritório. Os objetos também representavam, alguns deles, as pessoas que o tinham presenteado.
Talvez, por certo magnetismo referente à história por trás da filosofia religiosa, a figura de Buda o fascinava - o próprio Freud, em sua intimidade, decepcionado pelo caos da invasão nazista e extremamente preocupado com a situação de sua família, bem como atormentado pelas sucessivas e frustradas tentativas de prótese maxilar, buscava o "nirvana" apontado por Buda.
No final, não largou os charutos...

Fo significa budismo em chinês e o "cão" do fo era originalmente um leão - uma imagem que veio da Índia para a China no século III d.C.. Com o passar do tempo, estas terríveis figuras guardiãs assumem a forma de cachorros brincalhões (o cachorro pequinês passou a ser criado na China, especialmente por assemelhar-se a eles). O "cão do fo" de Freud é uma pesada figura de pedra, sentada sobre suas pernas traseiras. Estas figuras aqui mencionadas por Freud talvez tenham sido presentes de aniversários.

Freud amava os cachorros da família - verdadeiros companheiros em todos seus momentos íntimos. Os cães o animavam mais que as pessoas.
Em nota escrita para Eitingon, sobre o aniversário de 78 anos, expressa: "Quase todos os que me congratularam pelo meu aniversário este ano esperarão, em vão, pelos meus agradecimentos. Com esta técnica, espero treiná-los para que não façam o mesmo na próxima 'ocasião'"
O senhor vienense dava preferência à solidão, a caminhar pelo jardim da Strassergasse acompanhado pelos saltitantes cães que não falavam... o silêncio.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

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