quinta-feira, 19 de setembro de 2019

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: CRÔNICA DO AGRADECIMENTO



Aconteceu tudo muito rápido, de repente, como se houvesse ocorrido uma dobra na realidade, tal qual filme de ficção científica.
Na saída da padaria, após um bom cafezinho para começar bem o dia, pensava na troca do carro. Um carro novo e de aparência imponente. Via-se imponente naquele carro novo, que seria seu. Ele, o carro.
Foi quando cruzou olhares com o velho.
Vinha o velho assim, assado pelo calor sufocante de São Paulo, a puxar, sob a indignação das buzinas logo atrás, uma carreta de mão, carregada de tranqueiras e badulaques. Um rosto velho que estampava esforço. O velho a atrapalhar o trânsito na rua.
Na valeta, o rosto do velho inscreveu dor nos olhos. A carreta, que parecia ter vida própria de excesso de peso, parou, dizendo "não". O velho resistiu, fazendo força e trazendo dor. E as buzinas, implacáveis, berravam também de dor.
Ninguém percebeu, ninguém se importou.
Ele, parado na saída da padaria, foi tomado por uma brutal indignação, como se o suor do rosto do velho se misturasse ao seu próprio rosto.
Sentiu-se no velho: fragilidade, finitude, violência, visceralidade dolorida, desespero, humanidade aniquilada, ódio e brutalidade.
Em ato puro, largou o que tinha nas mãos e, num salto, empurrou a carreta, que contra vontade, acabou por passar a valeta. E ninguém percebia.
Antes de desaparecer pelo asfalto incandescente, o velho agradeceu singelamente.
E ninguém percebia.

"Olha, eu gostaria de agradecer por você me escutar por todo esse tempo que estamos juntos."
Já tinha dito da estranheza aconchegante do fato de não haver mesa entre os dois, e do quão se sentia agudo em si mesmo, na sensação de que ali parecia que a proximidade afetiva tornava um os dois, uma coisa assim, que humanizava, apesar de doloroso.
"Não consigo me defender totalmente de mim aqui. É bom, mas assusta muito isso."

Em um chacoalhar de cabeça, caiu em si novamente. A heroica fantasia perdera-se no tempo em que não se tem tempo, e no espaço de seus compromissos profissionais.
Viu-se ali, paralisado na saída da padaria, olhando, como todo mundo, o esforço do velho em vencer a valeta e sumir pela rua.
Com um tom depressivo, ouviu de si mesmo um "ele lá dentro" que dizia "covarde", "covarde".
Acendeu um cigarro e começou a andar, tomando seu trajeto cotidiano, imaginando como sentiria-se imponente no carro novo. 


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).