domingo, 19 de maio de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: ENTRE A BUSCA DE UM LUGAR (IM)POSSÍVEL



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 15 de maio de 1933 encontra-se a anotação: "Ernst partiu".


Enquanto Oliver tinha ido a Paris à procura de uma nova residência, Ernst foi a Londres para preparar uma moradia para sua família que, por ora, permanecera em Berlim. Em meados de junho, com a ajuda de conhecidos, entre eles Ernest Jones, já estava em vias de aí se estabelecer. Jones escreveu para Freud: "Conseguimos ajudar Ernst nos seus primeiros passos e ele tem correspondido à sua reputação de um Glückskind (homem de sorte). Você não deve se preocupar com o futuro dele. É um prazer tê-lo conosco na Inglaterra, embora eu fique pensando se esta sua personalidade tão vivaz não se adaptaria melhor à França".

1. Busca-se um lugar de pertença. Uma busca que, quando acredita-se terminada enfim, mostra-se apenas como alhures angustiante. Ter um "lugar" para atracar é intrínseco ao buscar incessantemente. Uma posição, uma tribo, uma linguagem que seja, a nos colocar em sensação confortável de dividir o engodo - saudável - de voltarmos ao que se perdeu sem nunca se ter tido, o nirvana do não sentir-se Eu, sozinho. Sentir-se Eu - esta labuta cotidiana de fincar bandeira no vazio. Às vezes, o Eu, esta representação em primeira pessoa - fundadora de todo movimento defensivo -, aplaca angústias do impensável, do impossível. Um eterno trânsito entre possíveis.

2. O "homem de sorte" não existe, é apenas fruto da fantasia de destino, encoberta pela rotina cotidiana - esta função tão cara, tão importante.

3. "Corresponder" é um verbo perigoso - obrigação de ter que, independente do que se deseja... se é que se deseja.

4. O que é melhor para o outro que não eu, é uma maneira sutil e ardilosa de se ter controle sobre o avesso de quem se preocupa. Que, primeiro, olhe-se para o próprio umbigo - que só revela vísceras -, antes de palpitar (ou seja, dominar), que tem por objetivo tornar coisa aquilo que é sujeito.

5. Entre Londres e Paris há Ernst em Berlim, tentando aplacar o traumático de um lugar não-lugar, revelado liquefeito pelo avanço nazista, por si só traumático.


OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.