sábado, 19 de janeiro de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: A PARTIDA



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 30 de agosto de 1932 encontra-se a anotação: "Ernst partiu".


Embora seja pouco provável que esta tenha sido a razão da visita, Ernst, assim com Martin - ambos filhos de Freud -, cuidava de alguns assuntos financeiros do pai neste período. Era ele que agora administrava os fundos do Prêmio Goethe. De vez em quando Freud pedia-lhe que pagasse uma determinada soma para alguém, proveniente destes fundos, na maioria das vezes eram presentes de aniversário - além dos pagamentos ao antiquário Dr. Lederer.
Considerando as retiradas feitas, é quase surpreendente que Freud se queixasse a Ernst em 1933: "Eu também acho deprimente que o Prêmio Goethe não tenha se estendido por mais de dois anos e meio".

Os filhos devem cuidar dos pais. Dever absoluto impresso no Real. Lógica neurótica que causa mais problemas do que soluções, posto que na falta, este "dever" torna-se culpa.
Os pais deveriam pensar em criar seus filhos para a vida - a vida deles, dos filhos.
Mas há, na maioria das vezes, esse apêndice, esse apelo: todo filho deve ter uma cota de sacrifício, entregando parte da vida aos pais.
Não podemos "deletar" nossos pais, é obvio, mas deveríamos refletir se não acabamos por permutar, no destino, o "deletar" de nossas vidas enquanto filhos. Certo bom senso, opositor da costumeira loucura culposa, é necessário.
Provavelmente, as "queixas de Freud" à Ernst, constitui-se nesse tipo de apelo. Coisas do velho Freud, olhando apenas para o próprio umbigo.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.