quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: KIMONO (NOTAS SOBRE UMA MODELAGEM)



"Para a psique humana, não há espelho no presente."
(Fabio Herrmann)

Com uma pequena lágrima a escorrer pelo rosto, como pequena que era, anunciou que as coisas não estavam bem. Lágrima contida dela contida. Corajosamente reconheceu o que a maquiagem do quotidiano se esforça em esconder: ela não tinha lugar dela. Na casa dos pais sentia-se estrangeira, buscando esconderijos que a não denunciassem, o que a denunciava a si. Na casa do namorado sentia-se parte da mobília, uma peça morta em uma relação morta - ali, ela acreditava no milagre da ressurreição de Lázaro.
Foi tomada por questão que parecia estranha a ela própria: revelava a insatisfação ou continha-se, quieta, a sobreviver "com aquela coisa que apertava o peito"?
Passara algumas noites assim, com essa questão a atormentá-la, tal qual fantasma irritadiço que assombra a própria sombra - sombra de fantasma, no caso. Como exorcismo, se pôs a fazer alguns kimonos. Ela sabia fazer kimonos. Aprendeu sozinha. Fazer kimonos era só dela. Kimono-ela, que um dia foi, sem se fazer possível agora, no amanhã que poderia ser. Um kimono-ela, marca de sucesso, marca de lugar, que poderia ter sido (independente).

*****

1. Gueixas são mulheres japonesas que estudam a tradição milenar da arte, dança e canto, e se caracterizam distintamente pelos trajes e maquiagem tradicionais. Contrariamente à ideia popular, as gueixas não são um equivalente oriental da prostituta. A relação da gueixa com seu "danna" (seu patrono) - que incluiu o absoluto ato de agradar -, atinge um grau de complexidade que excede a simplista ideia de passividade. A condição de gueixa é cultural, simbólica e repleta de status, delicadeza e tradição. A gueixa é mistério, a gueixa fascina.

2. Kimono é uma vestimenta tradicional japonesa. A palavra kimono significa "coisa para vestir". O kimono veste o corpo, portanto, o revela. O corpo vestido é o avesso do corpo nu, do corpo natural. O kimono dá lugar ao corpo. Fazer kimono é criar lugar.

*****

Ao final, tentando dar conta e dar-se conta da questão, entre uma taça e outra de vinho, fez cinco kimonos... vendeu todos.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

sábado, 19 de outubro de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: ENTRE O CAÓTICO E O NIRVANA



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 07 de maio de 1934 encontra-se a anotação: "Buda de marfim e cachorro de pedra do Fo segunda".


Freud tinha dois budas de marfim - ambas figuras bastante raras, dos séculos XVI-XVII, originárias da fronteira birmanesa da Tailândia. A figura em pé representa o Buda penitente e andarilho; o outro, sentado com a mão direita estendida em direção ao chão, é o Buda que toca a terra.

Inicialmente como tentativa de largar os charutos, como ato de deslocamento, Freud tinha um apreço especial, afetivamente carregado, por seus objetos antigos - a analogia com a ideia de uma arqueologia da mente encontrava-se representada em seu escritório. Os objetos também representavam, alguns deles, as pessoas que o tinham presenteado.
Talvez, por certo magnetismo referente à história por trás da filosofia religiosa, a figura de Buda o fascinava - o próprio Freud, em sua intimidade, decepcionado pelo caos da invasão nazista e extremamente preocupado com a situação de sua família, bem como atormentado pelas sucessivas e frustradas tentativas de prótese maxilar, buscava o "nirvana" apontado por Buda.
No final, não largou os charutos...

Fo significa budismo em chinês e o "cão" do fo era originalmente um leão - uma imagem que veio da Índia para a China no século III d.C.. Com o passar do tempo, estas terríveis figuras guardiãs assumem a forma de cachorros brincalhões (o cachorro pequinês passou a ser criado na China, especialmente por assemelhar-se a eles). O "cão do fo" de Freud é uma pesada figura de pedra, sentada sobre suas pernas traseiras. Estas figuras aqui mencionadas por Freud talvez tenham sido presentes de aniversários.

Freud amava os cachorros da família - verdadeiros companheiros em todos seus momentos íntimos. Os cães o animavam mais que as pessoas.
Em nota escrita para Eitingon, sobre o aniversário de 78 anos, expressa: "Quase todos os que me congratularam pelo meu aniversário este ano esperarão, em vão, pelos meus agradecimentos. Com esta técnica, espero treiná-los para que não façam o mesmo na próxima 'ocasião'"
O senhor vienense dava preferência à solidão, a caminhar pelo jardim da Strassergasse acompanhado pelos saltitantes cães que não falavam... o silêncio.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: CRÔNICA DO AGRADECIMENTO



Aconteceu tudo muito rápido, de repente, como se houvesse ocorrido uma dobra na realidade, tal qual filme de ficção científica.
Na saída da padaria, após um bom cafezinho para começar bem o dia, pensava na troca do carro. Um carro novo e de aparência imponente. Via-se imponente naquele carro novo, que seria seu. Ele, o carro.
Foi quando cruzou olhares com o velho.
Vinha o velho assim, assado pelo calor sufocante de São Paulo, a puxar, sob a indignação das buzinas logo atrás, uma carreta de mão, carregada de tranqueiras e badulaques. Um rosto velho que estampava esforço. O velho a atrapalhar o trânsito na rua.
Na valeta, o rosto do velho inscreveu dor nos olhos. A carreta, que parecia ter vida própria de excesso de peso, parou, dizendo "não". O velho resistiu, fazendo força e trazendo dor. E as buzinas, implacáveis, berravam também de dor.
Ninguém percebeu, ninguém se importou.
Ele, parado na saída da padaria, foi tomado por uma brutal indignação, como se o suor do rosto do velho se misturasse ao seu próprio rosto.
Sentiu-se no velho: fragilidade, finitude, violência, visceralidade dolorida, desespero, humanidade aniquilada, ódio e brutalidade.
Em ato puro, largou o que tinha nas mãos e, num salto, empurrou a carreta, que contra vontade, acabou por passar a valeta. E ninguém percebia.
Antes de desaparecer pelo asfalto incandescente, o velho agradeceu singelamente.
E ninguém percebia.

"Olha, eu gostaria de agradecer por você me escutar por todo esse tempo que estamos juntos."
Já tinha dito da estranheza aconchegante do fato de não haver mesa entre os dois, e do quão se sentia agudo em si mesmo, na sensação de que ali parecia que a proximidade afetiva tornava um os dois, uma coisa assim, que humanizava, apesar de doloroso.
"Não consigo me defender totalmente de mim aqui. É bom, mas assusta muito isso."

Em um chacoalhar de cabeça, caiu em si novamente. A heroica fantasia perdera-se no tempo em que não se tem tempo, e no espaço de seus compromissos profissionais.
Viu-se ali, paralisado na saída da padaria, olhando, como todo mundo, o esforço do velho em vencer a valeta e sumir pela rua.
Com um tom depressivo, ouviu de si mesmo um "ele lá dentro" que dizia "covarde", "covarde".
Acendeu um cigarro e começou a andar, tomando seu trajeto cotidiano, imaginando como sentiria-se imponente no carro novo. 


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

MEDITAÇÕES CURTAS: TEMPO, ESPAÇO, INTIMIDADE



Sentia-se assim desde sempre, desprezado pelo Mundo, vítima de injustiças alheias - um "não desejado" de todas as formas possíveis de se imaginar. Não entendia o porque de sua postura, sempre prestativa e bondosa, incomodar tanto os outros ao ponto de estrangular, em uma angústia aterrorizante, seu lugar de sujeito no Mundo - ele era o que se assujeitava. Um desastre na fatia das relações afetivas que compõe a vida. Um desastre na fatia funcional que sustenta o ganho para se viver decentemente, para além da profunda pobreza material que o mantém na escória. Ao lugar de pária, o corpo responde e acomoda-se como pária, em um insignificante fisiológico onde tudo falha.

Na doença psíquica, o sistema Campo/Relação comprime o espaço e, portanto, o tempo de percepção reflexiva, criando um mundo pobre de subjetividade, onde ocupa-se um lugar estagnado, quase morto de movimentos possíveis.
O Campo torna-se replicante e repetitivo, magnetizando o indivíduo em um lugar "sem espaço" para movimentos de construção e ampliação. A Relação se empobrece completamente, criando uma personagem concretada, tal qual monólogo entediante e mortífero.
Na intimidade desta cena de horror, o absoluto "não possível" mascara a possibilidade de enxergar a si em um jogo projetivo.

O "desprezado", sem perceber, sustenta, fortemente, no discurso próprio, na sutileza das entrelinhas, o desprezo pelo outro. Na intimidade escondida, o "desprezado" despreza.
O "desprezado" despreza assim, sem perceber, o movimento.
O "desprezado", adiantando-se ao Mundo, despreza todo mundo.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: RELIGIÃO



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 03 de setembro de 1933 encontra-se a anotação: "Laforgue".


Esta foi a última visita do psicanalista francês Laforgue, registrada no diário. Talvez um dos tópicos da conversa tenha sido a exclusão dos imigrantes alemães da Sociedade Psicanalítica Francesa. Na época, os franceses recusavam-se a aceitar médicos estrangeiros, como membros da sociedade, se estes não tivessem uma licença francesa. A princípio, não faziam objeção aos analistas leigos estrangeiros, mas aparentemente preferiam esperar um pouco antes de aceitá-los. Este procedimento ia de encontro às resoluções adotadas no Congresso de Oxford de 1929 e contradizia as aspirações internacionalistas da Associação Psicanalítica Internacional.


Atualmente, seguindo o desejo de Freud, a Psicanálise conseguiu sair do domínio médico e avançar campos estrangeiros à Medicina. Não há mais sentido em se discutir a "análise leiga", a não ser pelo fato (bastante grave) da existência de formações duvidáveis.
Analisar não é uma brincadeira conceitual.
Analisar é estar apto a mergulhar verticalmente no absurdo abissal do humano, sem pudor.

Jones e Anna Freud estavam irritados com a estreiteza da atitude francesa. Anna contrastou esta exclusão dos imigrantes com a imediata aceitação deles pelos ingleses e também citou uma lista de médicos estrangeiros aceitos pelas sociedades alemã e austríaca que tinham apenas uma licença estrangeira (Radó, Alexander, Harnik, Lampl-de Groot).

O estrangeiro. Para além de uma simples questão mercadológica territorial, devemos compreender que o analista é um estrangeiro, e nunca bem vindo.
Hoje é discussão a questão dos refugiados, infelizmente de uma forma rasa e horizontal. O refugiado, estrangeiro, vai de lá pra cá, empurrado, desumanizado pelo hipócrita discurso de que alguém se importa. O século XXI talvez seja o século do narcisismo desenfreado. O tempo dirá...

Mas em 1938 a situação tinha mudado: quando Anna veio para a Inglaterra deparou-se com o fato de ter que regatear com Jones até para incluir a vinda de apenas alguns dos analistas do grupo vienense.

O analista não pechincha...
A guerra política não deveria existir. Infelizmente existe. A discussão madura e construtiva é posta de lado, em prol de Poder.
Diz um velho ditado: me digas com quem tu andas, e te direi quem és.

No início de 1937, Laforgue visitou Freud mais uma vez. Naquela ocasião tentou convencê-lo a sair da Áustria. Freud respondeu: "Os nazistas, não tenho medo deles. Apenas me ajudam na minha batalha contra meu grande inimigo". Quando, surpreso, Laforgue perguntou quem era este, Freud respondeu: "Religião, a Igreja Católica".

Religião. Freud ficaria completamente decepcionado ao ver a Psicanálise despedaçada em Igrejas - um catolicismo próprio.
Ao ser capturado por um sistema religioso psicanalítico, o analista engessa, e, viralizado, perde a audição, perde a capacidade de ouvir. Passa a ser uma trama e um drama de conceitos vazios, repetitivos. Não há mais construção. Não há mais descobrir. Triste destino.
Há de se lutar contra...


OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.


domingo, 19 de maio de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: ENTRE A BUSCA DE UM LUGAR (IM)POSSÍVEL



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 15 de maio de 1933 encontra-se a anotação: "Ernst partiu".


Enquanto Oliver tinha ido a Paris à procura de uma nova residência, Ernst foi a Londres para preparar uma moradia para sua família que, por ora, permanecera em Berlim. Em meados de junho, com a ajuda de conhecidos, entre eles Ernest Jones, já estava em vias de aí se estabelecer. Jones escreveu para Freud: "Conseguimos ajudar Ernst nos seus primeiros passos e ele tem correspondido à sua reputação de um Glückskind (homem de sorte). Você não deve se preocupar com o futuro dele. É um prazer tê-lo conosco na Inglaterra, embora eu fique pensando se esta sua personalidade tão vivaz não se adaptaria melhor à França".

1. Busca-se um lugar de pertença. Uma busca que, quando acredita-se terminada enfim, mostra-se apenas como alhures angustiante. Ter um "lugar" para atracar é intrínseco ao buscar incessantemente. Uma posição, uma tribo, uma linguagem que seja, a nos colocar em sensação confortável de dividir o engodo - saudável - de voltarmos ao que se perdeu sem nunca se ter tido, o nirvana do não sentir-se Eu, sozinho. Sentir-se Eu - esta labuta cotidiana de fincar bandeira no vazio. Às vezes, o Eu, esta representação em primeira pessoa - fundadora de todo movimento defensivo -, aplaca angústias do impensável, do impossível. Um eterno trânsito entre possíveis.

2. O "homem de sorte" não existe, é apenas fruto da fantasia de destino, encoberta pela rotina cotidiana - esta função tão cara, tão importante.

3. "Corresponder" é um verbo perigoso - obrigação de ter que, independente do que se deseja... se é que se deseja.

4. O que é melhor para o outro que não eu, é uma maneira sutil e ardilosa de se ter controle sobre o avesso de quem se preocupa. Que, primeiro, olhe-se para o próprio umbigo - que só revela vísceras -, antes de palpitar (ou seja, dominar), que tem por objetivo tornar coisa aquilo que é sujeito.

5. Entre Londres e Paris há Ernst em Berlim, tentando aplacar o traumático de um lugar não-lugar, revelado liquefeito pelo avanço nazista, por si só traumático.


OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: O BRINCAR




Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 03 de abril de 1933 encontra-se a anotação: "Parto difícil de Jofi".


Jofi, a Chow Chow (presente de Ana), havia tido um filhote, anteriormente, que morrera. Desta vez ela "teve um parto perigoso, mas agora está bem e orgulhosa de seus dois filhotes que mais parecem uns ratinhos". Foram chamados de Fo e Tattoun; em julho, Freud escrevia que eles estavam "quase do tamanho da mãe, muito alegres e prontos para qualquer brincadeira".

Em dias de penúria e opressão, de angústia que aperta o peito, como nestes dias em que nos encontramos, dias de liberdade sem liberdade, se faz importante e necessário termos, e encontrarmos, brechas possíveis, frestas de um oásis, um lugar qualquer que nos blinde do excesso do lá de fora.
Talvez, a saúde mental deva conter pitadas, na medida certa de cada um, de alienação.

Freud, sofrendo das dores das tentativas mal-sucedidas das próteses, sofrendo das dores do desabamento da Civilização mal-sucedida, encontrava no incondicional oferecido pelos cachorros da família, momentos de paz e ludicidade, momentos raros na vida do professor vienense.

Parto difícil o de encontrar brechas para além de um sobreviver como autômatos, inseridos no não-pensamento das bandeiras ideológicas de nosso tempo. Parto difícil o de encontrar um viver... apenas.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

terça-feira, 19 de março de 2019

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: O ÓDIO



Isso, que é base do Preconceito, mazela das Ideologias, restos de uma Civilidade que nunca houve - a humana.

Isso, que é corrosivo por dentro, qual tumor silencioso a tomar proporções inimagináveis de destruição de si.

Isso, que revela nossas fraquezas envergonhadas, mimadas, infantis, e nos faz projetar no outro fantasiosa culpabilidade da infelicidade em nós, que somos tão infelizes nos deslizes insuportáveis que desfazem os púlpitos do engodo no equívoco de nossos passos inseguros.

Isso, que nos faz desejar socar, matar, humilhar, desumanizar, negando que o objeto de ataque não passa da imagem no espelho, que é nossa imagem em nosso espelho particular, a revelar uma busca rodopiante de sei lá o quê.

Isso, que nos deixa inquietos - inquietude de que somos feitos.

Isso, que justifica-se em mentiras que criamos, necessitados que somos por justificar o que pulsa sem encontrar objeto - nossa pobreza particular, a do Ato sem Pensamento.

Isso...

O Ódio, essa exigência de Amor.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: PHODASE



"Sabe, é horrível ter de pagar de intelectual a todo instante, é muito desgastante ter de bancar essa imagem. É como se me apontassem o dedo, revelando fragilidade e incompetência"
Lembra-se de um certo livro que, pela censura, teve que excluir o "foda-se" na capa.
"Parece que venceram a censura, a capa vai conter o 'foda-se'."
E se põe a olhar vagamente para cima, como de costume. Um olhar vago a procurar palavras, frases, textos, ideias soltas no ar. Coisa rara atualmente, o buscar ideias soltas livremente no ar.
Encontra, enfim, uma linha possível, que dá voz a uma criança ali dentro, diminuidinha, de olhar humildemente para baixo. A criança começa a falar...

Censura e Repressão, ideias que posso pensar como um dentro/fora. Há Censura e Repressão fora. Há Censura e Repressão dentro. O psiquismo é uma unidade, pensemos assim, dentro/fora. Não há o de dentro, não há o de fora, há o dentro/fora. Uma psique do Real a constituir seu sujeito que alimenta o retorno de psique ao Real.

Quando fala a criança, escuta-se o apelo à Liberdade. Utopia? Talvez... Mas se temos a ideia de Utopia, não será esta possível? Penso que toda ideia é um possível...

Mesmo a Liberdade necessita de uma temperança, de um meio termo justo.
O Absoluto encosta sempre no que conhecemos por delírio - no caso, maníaco.
A Liberdade Absoluta revela apenas seu avesso, um aprisionamento do "ter que", um dedo a apontar um imperativo, "Tens de ser Livre".

Sai da sessão conversando com os frases soltas no ar.
"Esta criança sempre desejou andar sozinha de ônibus. Vou convidá-la a fazer isso agora."
E vai, saltitante, pegar a condução para dar aula no Doutorado. Talvez uma aula mais lúdica, talvez...

*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

sábado, 19 de janeiro de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: A PARTIDA



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 30 de agosto de 1932 encontra-se a anotação: "Ernst partiu".


Embora seja pouco provável que esta tenha sido a razão da visita, Ernst, assim com Martin - ambos filhos de Freud -, cuidava de alguns assuntos financeiros do pai neste período. Era ele que agora administrava os fundos do Prêmio Goethe. De vez em quando Freud pedia-lhe que pagasse uma determinada soma para alguém, proveniente destes fundos, na maioria das vezes eram presentes de aniversário - além dos pagamentos ao antiquário Dr. Lederer.
Considerando as retiradas feitas, é quase surpreendente que Freud se queixasse a Ernst em 1933: "Eu também acho deprimente que o Prêmio Goethe não tenha se estendido por mais de dois anos e meio".

Os filhos devem cuidar dos pais. Dever absoluto impresso no Real. Lógica neurótica que causa mais problemas do que soluções, posto que na falta, este "dever" torna-se culpa.
Os pais deveriam pensar em criar seus filhos para a vida - a vida deles, dos filhos.
Mas há, na maioria das vezes, esse apêndice, esse apelo: todo filho deve ter uma cota de sacrifício, entregando parte da vida aos pais.
Não podemos "deletar" nossos pais, é obvio, mas deveríamos refletir se não acabamos por permutar, no destino, o "deletar" de nossas vidas enquanto filhos. Certo bom senso, opositor da costumeira loucura culposa, é necessário.
Provavelmente, as "queixas de Freud" à Ernst, constitui-se nesse tipo de apelo. Coisas do velho Freud, olhando apenas para o próprio umbigo.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.