sábado, 18 de agosto de 2018

KÜRZESTE CHRONIK: FERENCZI



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 28 de outubro de 1931 encontra-se a anotação: "Ferenczi".

Durante os três dias da visita de Ferenczi, os dois homens discutiram e tentaram elucidar suas crescentes divergências. Respeitado por Freud e, pode-se dizer, muito querido, Ferenczi encontrava-se bombardeado pelas críticas de Ernest Jones, que o considerava psicótico e repugnante, em função de alterações técnicas que, verdadeiramente, bagunçavam a ideia original de "transferência" - suscitando boatos sobre atuações sexuais com pacientes. 

"Estive muito com Ferenczi durante os três dias da sua estada. No primeiro dia ele estava retraído e bloqueado e teve um distúrbio intestinal correspondente; no segundo dia sentiu-se mais à vontade (relaxado) e escutou-me em silêncio enquanto eu lhe dizia mais ou menos tudo o que tinha a dizer; no terceiro dia respondeu com a bondade e a franqueza que lhe são costumeiras. Como ele não tocou em um determinado ponto, o seu distanciamento pessoal de mim, estou razoavelmente bem orientado sobe a localização do seu distúrbio. À parte dos riscos da sua técnica, lamento saber que ele esteja em um caminho não muito produtivo cientificamente. O essencial, entretanto, parece-me ser a sua regressão neuroticamente produzida. Mas com pessoas, é assim. O que se pode fazer quanto a isto?" (em carta para Eitingon)

Ferenczi era tratado como uma criança rebelde por Freud. Ocupava um lugar de destaque afetivo, mas transferencialmente, fora posto como adolescente que necessitava de um duro corretivo para voltar ao eixo do que se era esperado.
O relacionamento íntimo "maternal" com seus pacientes preocupava Freud.
Entretanto, sem perceber a ironia, era exatamente esse tipo de trâmite transferencial que envolvia a relação entre o dois homens.
Freud não conseguia dar lugar de autorização e independência à este "filho" tão querido.

Um mês depois o advertia:
"Já que você gosta de desempenhar o papel da mãe terna em relação aos outros, talvez o esteja fazendo em relação a si mesmo. Portanto você deveria escutar o lembrete do lado do pai brutal de que - tanto quanto me recordo - você não era estranho a jogos sexuais com pacientes na sua fase pré-analítica, de tal forma que poderia associar sua nova técnica ao seu velho erro. Daí ter falado de uma nova puberdade na minha carta anterior."

A técnica referida consistia em uma espécie de estreitamento afetivo com o paciente, estreitamento em excesso, e em uma análise mútua, que dava ao tratamento uma direção ativa por parte do paciente, o que acabava frequentemente desembocando em um labirinto perigoso que caminhava para fatal armadilha de atuação erótico-sexual.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.