domingo, 18 de março de 2018

KÜRZESTE CHRONIK: PARRICÍDIO



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 14 de dezembro de 1930 encontra-se a anotação: "Halsmann em Neue Presse"

O Neue Freie Presse, o único periódico vienense de reputação internacional, era devorado por Freud. Moritz Benedict, o principal editor, era considerado um dos homens mais influentes da Áustria, garantindo ao jornal a excelência nas áreas da cultura e literatura.

Phillip Halsmann era um estudante que fora declarado culpado de parricídio por um tribunal em Innsbruck, em 1929. Apesar do recurso ter sido indeferido, o professor em Jurisprudência da Universidade de Viena, Dr. Josef Hupka, publicou um longo artigo no Neue Presse, fazendo campanha pela absolvição de Halsmann.
Freud fora consultado por Hupka sobre o caso em questão, o que gerou "A perícia forense no processo Halsmann". O texto de Freud alertava contra o uso descuidado da Psicanálise no contexto forense, concluindo - utilizando o caso Halsmann como exemplo - que a Psicanálise não poderia, nos tribunais, ser mais do que uma prova indigna de confiança (a existência e a atuação do complexo de Édipo no suspeito, neste caso).
Freud citou a condenação injusta de Dmitri Karamazov e o aforismo de Dostoievsky - que a Psicologia é uma faca de dois gumes.

A Psicanálise teria muito a oferecer à ordem idealizada pela Justiça. Infelizmente, como em tantas outras áreas, o diálogo mostras-se incompatível, portanto infrutífero.
O magistrado da Justiça acaba, ao final, tapando as orelhas ao complemento em que a Psicanálise foi chamada a participar.
A Lei dos Homens, tão importante para a manutenção de uma sociedade civilizadamente estruturada, parece ter a pretensão de apenas punir, ao invés de procurar e reconhecer as causas da dita infração.
Além do mais, aparentemente, os Senhores e Senhoras da Justiça, atuais caricaturas olímpicas da Lei e da Ordem, demonstram uma lógica um tanto quanto absurda: a de não olhar para o próprio umbigo, antes de julgar o umbigo do outro.

O parricídio consiste no ato de uma pessoa matar seu próprio pai.
Talvez, um certo sadismo de Poder leve os Doutores e Doutoras da Jurisprudência, acreditarem que, exercendo poder absoluto sobre o outro, cheguem ao lugar de Deus sem "matar" (e reconhecer a morte simbólica, é óbvio) o próprio pai - o que, ultimamente, vem, inclusive, tornando-se "chiste" de mau gosto...
Talvez...

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

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