quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: A MOSCA



Aconteceu assim, num ímpeto. Simplesmente se viu a saltar o muro e a resgatar o pobre animalzinho recém-nascido, ali quase natimorto.
Cuidou dele como quem cuida de si.
Não foi mãe, foi ela.
Ela resgatando-se. Ela sentindo-se a sair do limbo, do útero, pela primeira vez.
Algo de estranho passar pela experiência de se ver ali saltando o muro.

Às vezes, o que agora lhe parece loucura e insensatez, ao andar pela cidade, via-se, num repente, atordoada, em vertiginosa imantação na direção dos trilhos do metrô. A queda encerraria de vez o barulho intermitente e fantasmagórico, sombra da morte que, ao mesmo tempo, a tornava diferente de todos os outros. Uma pessoa sombria e uma pessoa interessantíssima, convivendo no mesmo corpo.

Busca uma forma para o corpo. O corpo parece-lhe sempre um envoltório disforme, dismórfico. O corpo, para ela, é um enigma. Sexo e não sexo. Forma que nega a alma.

André Green, em um dos conceitos centrais de seu pensamento, descreve a ideia da "Mãe Morta". O termo se refere à maneira pela qual a falta de desinteresse (um não investimento) afetivo da mãe pela criatura humana, ainda no cerco do biológico - um recém-nascido nos primeiros dias de vida -, vai traduzindo-se, a posteriori, em sensação de vazio, de perda de sentido, em apatia, e em identificação violenta com um atemporal estado de enlutamento sobre si, como se a própria sombra refletisse a morte.

Agora é estranho enxergar a própria sombra - a sombra dela mesma.
O resgate a tirou dos trilhos do metrô.
Que possamos cuidar dos dois.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

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