terça-feira, 18 de dezembro de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: CONSIDERAÇÕES SOBRE UM VAZIO





Uma meticulosa educação em um rosto esvaziado de expressão.

1. Vai para lá porque tem de ir. Simplesmente vai. Não lhe importa o preenchimento do tempo - em verdade não se ocupa em pensar sobre isso. Sempre o mesmo tédio, nem inquietante, nem irritante, nem nada, apenas o mesmo tédio desde sempre.

2. Faz cumprir rigorosamente o que mandam, pois não manda. Não lhe cabe mandar - um verbo sem sentido possível -, apenas faz, executa.

3. Não possui sonhos e projetos, posto que, sendo seus - o que já não encontra brecha de sentido -, automaticamente tornam-se agressões aos que mandam.

4. Tão protegido que foi, transformou-se em corpo que não deseja. Mandam, ele cumpre.

5. Uma projeção mortífera do desejo de quem o protege em excesso. Um mausoléu vivo e andante, reparador de objetos perdidos de quem manda para proteger. Fotografia da perfeição ilusória de quem o fez, que não se fez.

Fazer-se é arrebentar a redoma protetora de quem manda.

Difícil sustentar o lugar analítico de quem não manda...


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

domingo, 18 de novembro de 2018

KÜRZESTE CHRONIK: MARTHA DE BERLIM



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 19 de abril de 1932 encontra-se a anotação: "Martha de Berlim".

A depressão econômica e as ameaças políticas marcaram as impressões de Martha. Freud escreveu: "Minha esposa apreciou muito a sua estada em Berlim embora nem tudo que viu tenha sido agradável. Os tempos são terríveis e não há nenhuma garantia de um futuro suportável".

A Grande Depressão, também conhecida como Crise de 1929, foi uma grande depressão econômica que teve início em 1929, e que persistiu ao longo da década de 1930, terminando apenas com a Segunda Guerra Mundial. A Grande Depressão é considerada o pior e o mais longo período de recessão econômica do século XX. Este período de depressão econômica causou altas taxas de desemprego, quedas drásticas do produto interno bruto de diversos países, bem como quedas drásticas na produção industrial e nos preços de ações, levando ao colapso praticamente todo o medidor de atividade econômica.
O Partido Nazista crescia assustadoramente, e a figura política de Hitler se fazia notar, apoiado por grupos de financistas e industriais, bem como pelo carismático e inflamado discurso, que o colocava no lugar idealizado de Salvador diante da desesperança e do desespero.

Na ausência de Martha, o alfaiate de Freud, Stefan, trouxera um novo terno. Freud escreveu para ela: "O novo terno feito por Stefan é mais uma vez perfeito, vou perguntar se ele faz próteses também".

O novo terno perfeito seria uma boa representação para a preocupação de Freud, que acreditava em um mundo melhor no pós Primeira Guerra. A sequência de próteses imperfeitas o incomodava profundamente... O bom humor, circunstancial como sempre, ajudava nesses momentos.

Atualmente, o humano encontrou arma mais moderna para empoderar seus exércitos - o mundo encontra-se em Guerra Comercial.
A depressão econômica, imersa no psiquismo do indivíduo, cria o "nós contra eles", gerando patologias não discutidas nos programas de TV, patologias da desesperança e do desespero que se alastram feito tumor, levando os homens ao retorno do não-civilizado.
A negação da repetição é o estancamento da possibilidade de elaborar-mo-nos enquanto humanos.
Se é que temos jeito...


OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: CHINATOWN



Acordou cedo, inspirada, como sempre, pelo amanhã, pela concretização do sonho sonhado de seu futuro. Seu sonho particular, seu futuro particular.
Tomou um banho rápido, deixou o filho pequeno com a mãe, e foi para os estudos, os andaimes de seu "mudarei de vida".
Na costumeira padaria, toma seu café, pensando nas estratégias do que foi sonhado como lugar no amanhã, pensada sob olhares de simpatia atraídos por sua forma simpática de ser.
Espevitada, com um sorriso cativante, é dessas pessoas em que a vida parece ter soprado duas vezes, colorindo o cotidiano de cores fortes.

Todo mundo tem segredos bem guardados no quarto secreto de Barba Azul. Ela também os tem.

Em determinada hora, arruma-se, determinada ao seu futuro particular. Um batom apenas para marcar a forma da boca de boneca, cabelo solto, vai ao encontro do estranho determinado pela mensagem no celular.

Sonhar o futuro contém certa dose de imprevisibilidade.

No amanhã não tomou café na costumeira padaria, onde distribuía sorriso e simpatia. Não sei dizer se será pensada amanhã.
O filho pequeno, amanhã será criado pela avó entristecida de tristeza do vazio do ontem.
O sonho sonhado ficará perdido na gaveta do particular.

Um corpo nu de mulher é encontrado em um hotel barato, cheirando cigarro barato, corpo morto e vazio de futuro, ao lado de um copo de vodka quente pelo passar das horas.
Ninguém ficou sabendo do sonho sonhado.
Ninguém sabe... Ninguém viu...

Amanhã, o corre corre do cotidiano põe, mecanicamente, o vazio particular de cada engrenagem viva a funcionar incessantemente em direção ao futuro.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

terça-feira, 18 de setembro de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: UM SORRISO



Chegou meio sem jeito, desajeitado assim que sempre foi, para um primeiro encontro estranho aos dois.
Sente-se sem lugar. Não ocupa espaço. Não se reconhece em tribo alguma do lugar que circula. Não é de "esquerda", não é de "centro", não é de "direita". A pré-determinação do extremo o incomoda, não reconhece sentido algum nisso, apenas discussões rasas, que não o convencem, apesar da dificuldade em definir-se. Sente vergonha...
Chega assim, de ombros caídos, curvando-se sobre si, em rascunho de "perdedor".

No primeiro encontro, estranho aos dois, vai se encontrando na cadeira, o corpo se encaixando melhor, revelando um jovem alto.
A conversa torna-se despretensiosa: música, games, política, super-heróis, e mulheres... ah mulheres... grande mistério as mulheres para ele... Fala de suas pretensões amorosas que carregam frustrações que machucam. Ele não ocupa espaço.

De quando em quando, um leve sorriso de canto de boca, ocupa o lugar da conversa. No sorriso os dois se entendem, se aproximam. Não se sabe ao certo o que revela, mas o sorriso tem um tom de aproximação, de "bem perto". No sorriso dele os dois se espantam, se surpreendem.

Sai relaxado da conversa. O sorriso de canto de boca retorna, ansioso, por ter voz, por poder ocupar espaço no segundo encontro, ainda estranho aos dois.

Não será o sorriso de canto de boca, despretensioso, a ocupar o lugar do discurso a ser ouvido?


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

sábado, 18 de agosto de 2018

KÜRZESTE CHRONIK: FERENCZI



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 28 de outubro de 1931 encontra-se a anotação: "Ferenczi".

Durante os três dias da visita de Ferenczi, os dois homens discutiram e tentaram elucidar suas crescentes divergências. Respeitado por Freud e, pode-se dizer, muito querido, Ferenczi encontrava-se bombardeado pelas críticas de Ernest Jones, que o considerava psicótico e repugnante, em função de alterações técnicas que, verdadeiramente, bagunçavam a ideia original de "transferência" - suscitando boatos sobre atuações sexuais com pacientes. 

"Estive muito com Ferenczi durante os três dias da sua estada. No primeiro dia ele estava retraído e bloqueado e teve um distúrbio intestinal correspondente; no segundo dia sentiu-se mais à vontade (relaxado) e escutou-me em silêncio enquanto eu lhe dizia mais ou menos tudo o que tinha a dizer; no terceiro dia respondeu com a bondade e a franqueza que lhe são costumeiras. Como ele não tocou em um determinado ponto, o seu distanciamento pessoal de mim, estou razoavelmente bem orientado sobe a localização do seu distúrbio. À parte dos riscos da sua técnica, lamento saber que ele esteja em um caminho não muito produtivo cientificamente. O essencial, entretanto, parece-me ser a sua regressão neuroticamente produzida. Mas com pessoas, é assim. O que se pode fazer quanto a isto?" (em carta para Eitingon)

Ferenczi era tratado como uma criança rebelde por Freud. Ocupava um lugar de destaque afetivo, mas transferencialmente, fora posto como adolescente que necessitava de um duro corretivo para voltar ao eixo do que se era esperado.
O relacionamento íntimo "maternal" com seus pacientes preocupava Freud.
Entretanto, sem perceber a ironia, era exatamente esse tipo de trâmite transferencial que envolvia a relação entre o dois homens.
Freud não conseguia dar lugar de autorização e independência à este "filho" tão querido.

Um mês depois o advertia:
"Já que você gosta de desempenhar o papel da mãe terna em relação aos outros, talvez o esteja fazendo em relação a si mesmo. Portanto você deveria escutar o lembrete do lado do pai brutal de que - tanto quanto me recordo - você não era estranho a jogos sexuais com pacientes na sua fase pré-analítica, de tal forma que poderia associar sua nova técnica ao seu velho erro. Daí ter falado de uma nova puberdade na minha carta anterior."

A técnica referida consistia em uma espécie de estreitamento afetivo com o paciente, estreitamento em excesso, e em uma análise mútua, que dava ao tratamento uma direção ativa por parte do paciente, o que acabava frequentemente desembocando em um labirinto perigoso que caminhava para fatal armadilha de atuação erótico-sexual.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

KÜRZESTE CHRONIK: BERGGASSE



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 26 de setembro de 1931 encontra-se a anotação: "Em Berggasse".

1. Esta anotação, registrada com um traço vermelho na margem esquerda, marca o final das férias de verão de Freud. Uma mudança ambígua: de um alojamento espaçoso em Pötzleinsdorf para o apartamento relativamente pequeno na cidade.

2. A casa de campo em Pötzleinsdorf proporcionara a Freud um bonito e agradável ambiente no verão. Os cachorros de estimação aproveitaram a temporada e a liberdade do jardim - "Não consigo mais imaginar o verão sem estes animais". Segundo Freud, Jofi suportou encantadoramente a maioria das visitas humanas - Freud já não suportava tão bem assim...

3. Em meio às tentativas de Kazanjian sobre a prótese, Freud conseguiu trabalhar: voltou a escrever, e atendeu quatro pacientes (Dorothy Burlingham, Marie Bonaparte, Irma Putnam, e Jeanne Lampl-de Groot). O trabalho para Freud era confortador e eficaz contra as várias decepções em relação à prótese no maxilar: "Parece que nada mais pode ser feito por mim".

4. O retorno para Berggasse quase coincidiu com a data em que completaria 40 anos da mudança para o famoso endereço em Viena. Freud oficialmente registrou-se como residente na Berggasse 19 em 23 de setembro de 1891. Em 12 de setembro de 1891, escrevia para sua cunhada: "Estamos agora vivendo na IX Berggasse 19, depois de muitos problemas".

5. Atualmente um museu dedicado ao mestre vienense, o endereço na Berggasse 19 marcou a Psicanálise, bem como o próprio Freud, de forma inestimável. Um lar onde Freud sentia-se confortável...

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: MADRE



Ela é um presente de Deus. Tão boa moça, tão responsável. Cuida de mim.
Nasceu de minhas entranhas, minhas vísceras. Meu útero a aconchegou para que depois ela cuidasse de mim. Uma troca justa.
Às vezes, penso que ela sacrificou-se por mim... mas só às vezes penso. Uma troca justa.
Castrei seus desejos, moldei sua vida através de meus mimos, minhas dores, minhas doenças. Uma troca justa.
Criei-a como apêndice de mim mesma, sem deixar cortar o cordão umbilical que nos une para sempre, para sempre.
Meu útero a aconchegou para que fosse negação da dor daquilo que não fui. Castrei por ter sido castrada.
Tão boa menina que cuida de mim.

Agora ela se rebela.
Resolve seguir outro caminho que não o do meu lado para sempre.
Ingrata, pecaminosa. Eu que a gerei de minhas entranhas na dor do parto que a pariu.
Puta que pariu para ela.
Nada escolhi para mim. Era tão boa moça. Cuidaria para sempre de nós.
Agora ela resolve ir por caminho próprio.
Vou adoecer, enlouquecer quem sabe?
Vou me contorcer, fazê-la sentir-se culpada, para que ela volte a ser a boa menina que cuida de mim.

Injusto Deus que permite ela pensar em me deixar...


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

sexta-feira, 18 de maio de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: QUANDO ABRO MEUS OLHOS, TUDO É O QUE PARECE SER



Lá, onde a prainha selvagem se constituía na perfeição da cena de paz e tranquilidade, ele sentou-se, nu, a contemplar o som das ondas do mar que o destituíam de todo o barulho interno.
Nada, absolutamente nada, entre ele e esse estado indescritível...
Sem cobrança, sem culpa, sem obrigações, sem lenço nem documento, sem porra nenhuma!!!
Sem desejo, sem pensamento, sem humano... Ser o som das ondas do mar - que, dizem, ser extremamente relaxante... Extremo.

"As acácias ainda estão perfumadas, as limeiras estão prestes a começar, pássaros pretos e cotovias estão dando voltas ou passeando, sem alto-falantes ou buzinas de carro para perturbar a paz. Pode-se ser muito feliz aqui. É claro que eu não estou." - escreve Freud para Eitingon, em meados de jun/1931, sobre a mudança para Poetzleinsdorf.

Algo invade a prainha paradisíaca, um certo incômodo...
Pequenos grãos de areia a invadir o rabo nu, o lembram de algo alarmante: "Tens um cu".
A coceira fica insuportável. Maldita fisiologia, maldita Natureza selvagem. Paz insustentável!!!

Levanta-se irritado, coçando a bunda latejante, despojando-se da pele romantizada.
E vai para o automóvel confortável, a poucos metros de onde estava...

No burburinho da Augusta, sentado em um boteco a apreciar gelada cerveja, entrevê, do outro lado da rua viva, um indigente sujo, provavelmente fedido, e, em pacificação interior, diz baixinho para si mesmo: "Não sou aquilo lá... Sou diferente dele... Sou civilizado..."
Chama mais uma cerveja e entreolha o movimento da Augusta.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

quarta-feira, 18 de abril de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: A PÁGINA PERDIDA DE J. M. BARRIE



Reza a lenda que, em passagem pela Terra Brasilis, transloucado após três caipirinhas, J. M. Barrie escreveu uma página não publicada para sua notória peça teatral "Peter and Wendy" - o que foi veementemente negado pelo escritor.

Na página herege, Tinkerbell marca, em segredo, um chá das cinco com Wendy - uma conversa entre mulheres.
Durante a conversa animada, sem a presença infantil de meninos, a fada impulsiva expõe sua vontade de transformar-se em condor e sobrevoar livremente os Andes, sem a chatice de Peter Pan, em liberdade de corpo e alma.
Wendy, mais responsável e conservadora, discorre sobre a dificuldade do Eterno Menino em acompanhar seus projetos de crescimento profissional e de seu desejo de, um dia lá na frente, paparicar os netos com histórias infantis.
E assim a conversa animada foi-se dando, entre bebericadas de chá...
Lá pelas tantas, as duas se entreolharam com cumplicidade e, em toque de mãos amigáveis, sentiram a profundidade da tentativa de fusionarem-se em uma Tinkerbell/Wendy - perfeição do feminino naquele chá das cinco.

Deitada e voando livre no divã, em meio a um choro sentido sobre ter-se de pagar um preço por cada movimento e momento vivido nessa vida de responsabilidades e liberdades, solta uma cômica e honesta gargalhada: o lenço de papel encavalou-se na saída da caixa... "Não quer sair... Travou o lenço aqui... kkkkk... Olha o que fiz com teus lenços!!!"


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

domingo, 18 de março de 2018

KÜRZESTE CHRONIK: PARRICÍDIO



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 14 de dezembro de 1930 encontra-se a anotação: "Halsmann em Neue Presse"

O Neue Freie Presse, o único periódico vienense de reputação internacional, era devorado por Freud. Moritz Benedict, o principal editor, era considerado um dos homens mais influentes da Áustria, garantindo ao jornal a excelência nas áreas da cultura e literatura.

Phillip Halsmann era um estudante que fora declarado culpado de parricídio por um tribunal em Innsbruck, em 1929. Apesar do recurso ter sido indeferido, o professor em Jurisprudência da Universidade de Viena, Dr. Josef Hupka, publicou um longo artigo no Neue Presse, fazendo campanha pela absolvição de Halsmann.
Freud fora consultado por Hupka sobre o caso em questão, o que gerou "A perícia forense no processo Halsmann". O texto de Freud alertava contra o uso descuidado da Psicanálise no contexto forense, concluindo - utilizando o caso Halsmann como exemplo - que a Psicanálise não poderia, nos tribunais, ser mais do que uma prova indigna de confiança (a existência e a atuação do complexo de Édipo no suspeito, neste caso).
Freud citou a condenação injusta de Dmitri Karamazov e o aforismo de Dostoievsky - que a Psicologia é uma faca de dois gumes.

A Psicanálise teria muito a oferecer à ordem idealizada pela Justiça. Infelizmente, como em tantas outras áreas, o diálogo mostras-se incompatível, portanto infrutífero.
O magistrado da Justiça acaba, ao final, tapando as orelhas ao complemento em que a Psicanálise foi chamada a participar.
A Lei dos Homens, tão importante para a manutenção de uma sociedade civilizadamente estruturada, parece ter a pretensão de apenas punir, ao invés de procurar e reconhecer as causas da dita infração.
Além do mais, aparentemente, os Senhores e Senhoras da Justiça, atuais caricaturas olímpicas da Lei e da Ordem, demonstram uma lógica um tanto quanto absurda: a de não olhar para o próprio umbigo, antes de julgar o umbigo do outro.

O parricídio consiste no ato de uma pessoa matar seu próprio pai.
Talvez, um certo sadismo de Poder leve os Doutores e Doutoras da Jurisprudência, acreditarem que, exercendo poder absoluto sobre o outro, cheguem ao lugar de Deus sem "matar" (e reconhecer a morte simbólica, é óbvio) o próprio pai - o que, ultimamente, vem, inclusive, tornando-se "chiste" de mau gosto...
Talvez...

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

KÜRZESTE CHRONIK: O INÍCIO DE UM LONGO DECLÍNIO



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 03 de outubro de 1930, aparece a anotação "Todos os médicos em Pichler".

1. Já fazia quase um ano desde o "alarme falso", dentre os vários "alarmes falsos", que levara Freud à sua última consulta com Pichler. O Prof. Hans Pichler (1877-1950) era o especialista que cuidava do problema das inúmeras próteses no maxilar de Freud. Freud, frente a inúmeros "alarmes falsos", preparara-se e anunciara diversas vezes sua própria morte. Esta consulta ao especialista, segundo Michael Molnar, se deve à suspeita de Max Schur (1897-1969), médico particular de Freud, ao detectar um neoplasma.

2. Aqui, na data de 03 de outubro de 1930, marca-se o início de um longo e tortuoso declínio para o doente Sigmund Freud, que duraria nove anos, até sua combinada eutanásia. Pichler estaria, a partir de agora, sendo constantemente consultado e continuamente operando, até 1938.

3. Segundo Michael Molnar, além de Schur, estariam presentes nesta consulta, o dentista Weinmann, a segunda "médica pessoal" de Freud, Ruth Mack Brunswick, e o assistente de Pichler, Berg. Freud, provavelmente, deve ter detestado a quantidade de pessoas em torno dele.

4. As notas de Pichler registram os resultados desta consulta: a descoberta de uma pequena leucoplastia atrás da prótese, e uma área em torno de 1 cm, que ele suspeitava, com razão, ser uma proliferação pré-cancerosa do epitélio. A recomendação de Pichler foi de uma semana de observação e uma cirurgia.

5. De todos os médicos presentes na consulta com Pichler, nenhum estava na posição do médico/homem Sigmund Freud. Resignado já a algum tempo, mas não entregue e nem apático, Freud suportou o declínio de sua saúde até onde lhe foi possível, produzindo continuamente Psicanálise. Por ironia do Destino, solicitou a eutanásia combinada com Max Schur e Anna Freud - duas letais doses de morfina -, quando sentiu a impossibilidade de continuar a produzir...


OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: A MOSCA



Aconteceu assim, num ímpeto. Simplesmente se viu a saltar o muro e a resgatar o pobre animalzinho recém-nascido, ali quase natimorto.
Cuidou dele como quem cuida de si.
Não foi mãe, foi ela.
Ela resgatando-se. Ela sentindo-se a sair do limbo, do útero, pela primeira vez.
Algo de estranho passar pela experiência de se ver ali saltando o muro.

Às vezes, o que agora lhe parece loucura e insensatez, ao andar pela cidade, via-se, num repente, atordoada, em vertiginosa imantação na direção dos trilhos do metrô. A queda encerraria de vez o barulho intermitente e fantasmagórico, sombra da morte que, ao mesmo tempo, a tornava diferente de todos os outros. Uma pessoa sombria e uma pessoa interessantíssima, convivendo no mesmo corpo.

Busca uma forma para o corpo. O corpo parece-lhe sempre um envoltório disforme, dismórfico. O corpo, para ela, é um enigma. Sexo e não sexo. Forma que nega a alma.

André Green, em um dos conceitos centrais de seu pensamento, descreve a ideia da "Mãe Morta". O termo se refere à maneira pela qual a falta de desinteresse (um não investimento) afetivo da mãe pela criatura humana, ainda no cerco do biológico - um recém-nascido nos primeiros dias de vida -, vai traduzindo-se, a posteriori, em sensação de vazio, de perda de sentido, em apatia, e em identificação violenta com um atemporal estado de enlutamento sobre si, como se a própria sombra refletisse a morte.

Agora é estranho enxergar a própria sombra - a sombra dela mesma.
O resgate a tirou dos trilhos do metrô.
Que possamos cuidar dos dois.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).