domingo, 17 de dezembro de 2017

KÜRZESTE CHRONIK: SOB O OLHAR DE MATHILDE



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 06 de agosto de 1930, aparece a anotação "Mathilde chegou".

Molnar nos esclarece que, Mathilde, filha de Freud, veio passar um mês com seus pais, em Grundlsee.
Na família, Mathilde era reconhecida por seu senso de responsabilidade e pela sua natureza prática.
Provavelmente, neste ano, deu de presente ao pai a poltrona de formato singular, que Freud usaria pelo resto da vida.

A poltrona fora encomendada ao designer Felix Augenfeld - amigo de Ernst Freud -, sob medida, para que atendesse às necessidades de Freud.
Escreve o designer: "Ela me explicou que Sigmund Freud tinha o hábito de ler em uma posição muito peculiar e desconfortável. Encostava-se na sua cadeira em uma posição um tanto diagonal com uma das suas pernas jogadas por cima do braço da cadeira e segurava o livro acima da cabeça, que estava sem apoio. Este modelo um tanto esquisito da cadeira que desenhei pode ser explicado como uma tentativa de manter a sua posição habitual e torná-la mais confortável".

O lugar de Mathilde na família... Responsável e prática.
Sob seu olhar, o pai estava desconfortável em uma situação bastante íntima e apaixonada - o leitor Freud.
Provavelmente Freud gostou do presente, não tanto pelo conforto, já que o "desconforto" encontrava-se no olhar da filha, mas sim pelo modelo esquisito, o que combinava perfeitamente com a posição peculiar em que lia. E Freud lia, lia muito...

O que projetamos no outro sob a forma de nosso olhar?
Qual o desconforto nosso de cada dia, que a forma peculiar do outro revela?
Talvez, sob nosso olhar, o outro faça emergir nossas mais íntimas aberrações...


OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.