segunda-feira, 17 de julho de 2017

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: ENSAIO SOBRE O MALABARISMO



Aos jornais
Eu deixo meu sangue
Como capital
Como capital
E às famílias
Um punhal
(À corte eu deixo um sinal)1


Intrigado, observa atentamente o furo no solado do sapato. Perfeitamente redondo, redondinho. Curioso, passa o dedo pela borda do orifício feito na sola de borracha. Geometricamente redondo.
Sob o ruído de metal enferrujado da torneira, joga um pouco de água no rosto, que mal se delineia no espelho já manchado. A barba rala esconde seus quase sessenta anos de idade.
A mochila, dando sentido ao dia que começa a clarear, é preparada com pequenas amostras de bugigangas para revenda. Um dia a mais, perdido entre tantos outros dias iguais, de um calendário que já não existe.
Gosta de caminhar, apesar de não ter dinheiro para a condução. O valor da pessoa é medido pelo dinheiro que se tem. Antes, percebia a paisagem, as ruas, as avenidas, as alamedas. Hoje não mais. Apenas anda, anda, anda. Associa o ato de andar ao orifício geometricamente redondo. Um círculo perfeito na sola do sapato. Para de vez em quando, pedindo um copo de água nas padarias e bares.
E vai andando, tentando vender alguma coisa representada dentro da mochila. Pecinhas sem importância. A camisa vai ficando para fora da calça.
Normalmente é bem recebido, mas dificilmente revende alguma coisa relevante. O valor da pessoa é medido pelo dinheiro que se tem.
Um pouco cansado, resolve sentar em um banco de praça. Deu sorte, uma árvore lhe entrega sombra. Volta, curioso, a pensar na geometria perfeita do furo na sola do sapato.
Um malabares, aproveitando a deixa do semáforo, se exibe em um espetáculo fabuloso. Pinos vão para o alto e descem rodopiando, rodopiando. No rodopio, permite-se a recordar, a pensar em si.

Houve um tempo que tinha valor, pois tinha dinheiro.
Poderia considerar-se uma pessoa boa, honestamente prestativo, um homem de boa vontade. Tinha por hábito ajudar todo mundo. Ele realmente acreditava nos homens.
Projetou a cena de uma família feliz, que almoçava junto e conversava. Aos finais de semana, a casa estava repleta de amigos. Ah... os amigos lhe eram tão caros!!!
A honra do sobrenome italiano era defendida a todo custo. Manter o sobrenome intacto, firme, limpo... um homem de bem, orgulho dos antepassados de épocas difíceis.
A vida era uma geometria perfeita, tal qual o furo na sola do sapato.
Pinos para o alto, rodopiando para baixo... que agonia imaginá-los estatelados no asfalto.
Já naqueles tempos, uma lembrança estranha entrecortava a perfeição de sua cena. Quando criança, ao brincar de escolinha, se via sempre como o aluno que não deu certo, levando um puxão na orelha e palmadas nas nádegas. E, o que estranhava, sentia prazer de estar nesse lugar. Incômodo. Desejava as palmadas nas nádegas.

A geometria perfeita do orifício no solado do sapato o intrigava.
Houvera outra geometria que o fascinou: a retangular.
A televisão era retangular, o cartão de crédito era retangular.
As propagandas no retângulo perfeito forjaram seu destino. O pino estatelou-se no chão imitando o barulho das palmadas nas nádegas.
Foi consumido por ter valor. O valor do carro importado, o valor do banco vip, o valor do ser especial ao vestir-se de televisão. E o cartão de crédito inflou até se transformar em círculo... o orifício na sola do sapato. Foi quando descobriu que as contas e faturas da fartura, eram de uma estranha geometria. Veio a imperfeição.
Os escritórios de cobrança, tal qual urubus, não se importavam com o sobrenome de homem bom. A imperfeição em que se transformava o sobrenome italiano o levou ao primeiro infarto. Os urubus não se importavam, nem se só carniça sobrasse.
Perdeu família, se viu sem amigos. Ah... como lhe eram caros os amigos!!!
Não tinha mais dinheiro, não tinha mais valor. Pensara, um dia, em se matar, mas a ideia foi-se, perdida na falta de um ouvinte, nos dias do calendário que se foram misturando até todos os dias serem iguais.
Assumira, enfim, o lugar da lembrança infantil, com a diferença de que não havia prazer, havia uma letargia, um nada que se repetia dia após dia.

Foi resgatado de seu devaneio rodopiante pelos pinos do malabares que não rodopiavam mais. O alegre rapazinho estava a correr pelos automóveis, recolhendo algum dinheiro. O semáforo ficou “verde” e o jovem malabares contava o valor conseguido no breve espetáculo.
Voltou a ser atraído pelo furo na sola do sapato, tão perfeitamente redondinho.
Passou a mão na fronte da face que se perdera no espelho manchado, tirou um pouco de suor, e levantou-se.
Fechou uma pequena revenda em uma bicicletaria – aqueles pequeninos tampõezinhos de plástico para válvulas diminutas de pneus.
Se pôs em marcha novamente. Talvez em direção ao sofá... talvez...
Um leve suspiro, uma leve sensação, sorrateira, lhe tomou as ideias: que prazer naquelas palmadas.
E assim, andando sem saber direito para onde, a sola furada do sapato foi conduzindo aquela criatura quixotesca.

NOTAS
1. Trecho da letra da música “O Salto” (O RAPPA).

*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

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