sábado, 17 de junho de 2017

KÜRZESTE CHRONIK: ANTÍGONA



"Por tudo que me tem negado, o destino me premiou com uma compensação - ter uma filha que, em circunstâncias trágicas, não teria ficado aquém de Antígona."
(SIGMUND FREUD)


Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 03 de dezembro de 1929, aparece a anotação: "Aniversário de Anna, 34 anos".

Nos últimos 10 anos da vida de Freud, a sua filha mais nova, Anna, tornou-se indispensável para ele, por diversas razões. Depois da fatídica cirurgia, Freud afastou-se bastante das atividades públicas e dos negócios. Coube a Anna o envolvimento com o trabalho do Instituto de Psicanálise de Viena e com a administração da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). A filha mais nova foi o elo entre o pai e o mundo exterior.
Relembrando muito os romances familiares contidos nos "Estudos sobre a Histeria" (1895), Anna passou a ser, de fato, sua enfermeira.

Antígona é uma figura da mitologia grega. Filha do casamento incestuoso entre Édipo e Jocasta, foi um exemplo belo de amor fraternal - a única filha que nunca abandonou Édipo, acompanhando-o do exílio até a morte. Na versão de Sófocles, Antígona é enterrada viva.

Se mais provas são necessárias para confirmar a crucial importância de Anna nos últimos anos de vida de Freud, pode-se apontar o fato de que todos os seus aniversários entre 1929 e 1938 são registrados no "diário" - o que não ocorreu com nenhum outro membro da família, nem mesmo com Martha, sua esposa.


OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.


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