sábado, 16 de abril de 2016

TRADUÇÃO



Há de se prestar atenção devida ao ler-se um texto traduzido.
Praticamente impossível à uma tradução, escapar das armadilhas, muitas vezes não propositais, muitas vezes perversas, da subjetividade do tradutor.
Ao tradutor, cabe uma aproximação abstinente ao texto original. Ao leitor, cabe a utilização do bom senso, de pesquisa e aprofundamento histórico e ideológico do autor original.

Marilene Carone (1924-1987), ao desafiar-se no projeto de tradução de alguns textos freudianos, manteve a postura não leviana de compreender ao máximo a profundidade do autor original, de sua localização histórica, de sua estilística de escrita, de sua personalidade. Um estudo trabalhoso, coroado com a aproximação da tradução nos apresentada ao "modo popular", escolhido por Freud. Um estilo de escrita que pretendia, mesmo quando a discussão era de ordem complexa, produzir um texto de fácil acesso à compreensão do leitor leigo.

A escuta, o trabalho do texto que sai da boca e entra na orelha, não é diferente.
A escuta, essa forma de tentativa de compreensão do discurso do outro, não está isenta de armadilhas.
Armadilhas muitas vezes inconscientes, armadilhas muitas vezes narcisicamente investida, armadilhas muitas vezes tendenciosas...
A escuta, para escapar da leviandade da imposição de opinião e levar a cabo a postura vertical de entendimento do que se fala ao ouvido, também deve se dar ao trabalho meticuloso de estudo, de localização histórica e ideológica, de profundo respeito abstinente da diferença. Caso contrário, a orelha que escuta corre sério risco de, por um lado, conduzir a boca que fala no caminho ideologicamente "correto" da concha auditiva de quem ouve, por outro, tristemente, se por a repetir, feito papagaio, uma ideia dogmatizada, comprada sem pesquisa, que acaba, indiscutivelmente, caindo nas teias que transformam o sujeito pensante em sujeito autômato, um zumbi sem possibilidade de construção de uma frase de si.

Discussões políticas e religiosas são um bom exemplo da contemporânea armadilha.
Na religião, a falta de conhecimento, produz a união incompatível de um "velho testamento" à um "novo testamento", a bel prazer de quem conduz o discurso que corrompe.
Na política, os gestos e as inflamações da fala, captura orelhas desatentas, distorcendo o que deveria ser profundamente compreendido.

Marilene Carone, astuta por ser estudiosa, nos brindou com traduções preciosas, corrigindo equívocos importantes de um autor importante, através de um aprofundamento crítico, e muitas vezes carregado de ironia humorada, sobre a tendenciosa e sedutora, portanto distorcida traição, que se apresentava aos olhos de um leitor, muitas vezes, desatento.

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