quarta-feira, 16 de março de 2016

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: NO FUNIL



"Às vezes me sinto tão impotente, me sinto tão sem saída... As coisas parecem que vão na direção contrária ao que eu gostaria... Sinto-me muito mal nesses momentos."

Há, sem sombra de dúvida, um ato de coragem ao enfrentar um processo de análise. Sem mágica, sem frases prontas, sem promessas miraculosas, a análise é um corte profundo e seco na carne do próprio desejo - uma espécie de deixar à mostra o conflito entre o que queremos e o que é possível.

Agora decidido, depois de anos de relutância, resolveu tomar para si, e somente para si, as rédeas da própria vida. Difícil exercício solitário e doloroso a percepção que o compartilhar com o outro não acontece, não vem... O outro resiste ao movimento em busca de uma verdade libertária.
Prefere-se ele assim, aprisionado ao absurdo de uma confusão sem começo, sem fim...

Difícil encarar que o investimento não passa de farsa idealizada, em um movimento de escoamento total de criatividade, paralisador portanto.

Ele resiste, busca caminhos alternativos, busca ocupar a cabeça com coisas que lhe dão prazer. Mas no discurso unilateral do outro é tudo sempre pequeno, pequeno, pequeno... Como se suas coisas fossem detalhes sem importância, deslocados de um cotidiano "normal". O que seria um cotidiano normal? Normal para quem?

"As coisas caminham para um afunilamento... Tenho medo deste afunilamento... Um funil que solicita decisões... Já tive mais medo disso."

Quando nos vemos autorizados a decidir, não significa o extirpar do medo.
Apenas nos apropriamos da autorização de decidir.
Muito mais fácil permanecer no apelo neurótico de um conforto infernal, onde a vida vai assim passando, passando, passando...
Enquanto o outro for responsável por nosso destino - engodo de nosso mundo mental -, resume-se tudo em minutos que passam, passam, passam, estéreis às nossas possibilidades de ser.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

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