quarta-feira, 19 de agosto de 2009

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: ALGUMAS NOTAS SOBRE OS LIMBIANOS

Transcrevo aqui duas anotações de meu Diário, sobre as viagens por Límbia, território fantástico, situado em algum lugar entre o Olímpo e o Aqueronte.
Perdoem-me as dificuldades de tradução das idéias limbianas para a compreensão em nosso Mundo Humano.

43 de abril do Futuro do Pretérito
Uma das características mais impressionantes dos Limbianos se encontra no fato de nascerem já adultos, muito provavelmente em decorrência dos efeitos onto-sócio-gravitacionais deste estranho lugar.
Ao acompanhá-los mais de perto, tive a oportunidade de observar que estes, os Limbianos, passam horas, dias, semanas, meses e anos criando histórias sobre a própria infância inexistente. Constroem, portanto, elaborados relatos ficcionais sobre amor, ódio, rejeição, culpa e frustração; verdadeiros Reinados, repletos de intrigas e disputas sobre Objeto inalcançável, posto nunca ter existido. Após meticulosa construção, vivem a história ardentemente – situação ritualística, inserida em uma espécie de “re-memoração”, a que denominam “Sintoma”.
Creio que a própria História de Límbia passa por processo semelhante.
A quebra deste ato ritualístico, estranhamente denominada de “com-memoração” ou “Cura”, é punida com o exílio para um local de infinitas possibilidades de existência – o que é muito temido pelos Limbianos, por significar uma espécie de “liberdade de si mesmo”.

43 ½ de abril do Futuro do Pretérito
Na presente data tive uma experiência interessante. Inserido em uma conversa cotidiana com os Limbianos, percebi a violência com que repudiam o fato de alguém ouvir o que não deve ser ouvido.
Intrigante!!! Eles, os Limbianos, possuem uma espécie de Classificação para os ouvintes: os “surdos e meio”, que são muito bem vistos e possuem certa hierarquia social – pelo óbvio motivo de não ouvirem nada e mais um pouco de nada que não se pode -; e os “meio surdos”, considerados inadequados e relegados a uma classe de não-cidadãos, portanto, discriminados – por ouvirem meias palavras ou palavras no meio do discurso que, segundo os estudiosos e criadores de tal Classificação, ou seja, os próprios Limbianos, absolutamente não existem e são fruto de um Distúrbio de Percepção.

*Denomino carinhosamente “Limbiano” o Ser Ficcional – o Homem Psicanalítico - que habita o Consultório do Analista e que, portanto, inclui o próprio autor destas linhas. Ao Homem Psicanalítico, esse Ser da Crise Representacional, presto minha homenagem.
*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)

Um comentário:

  1. E o desejo nesta história e em tantas outras do viver, insiste cada vez mais em desejar ...

    ResponderExcluir