quinta-feira, 18 de outubro de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: CHINATOWN



Acordou cedo, inspirada, como sempre, pelo amanhã, pela concretização do sonho sonhado de seu futuro. Seu sonho particular, seu futuro particular.
Tomou um banho rápido, deixou o filho pequeno com a mãe, e foi para os estudos, os andaimes de seu "mudarei de vida".
Na costumeira padaria, toma seu café, pensando nas estratégias do que foi sonhado como lugar no amanhã, pensada sob olhares de simpatia atraídos por sua forma simpática de ser.
Espevitada, com um sorriso cativante, é dessas pessoas em que a vida parece ter soprado duas vezes, colorindo o cotidiano de cores fortes.

Todo mundo tem segredos bem guardados no quarto secreto de Barba Azul. Ela também os tem.

Em determinada hora, arruma-se, determinada ao seu futuro particular. Um batom apenas para marcar a forma da boca de boneca, cabelo solto, vai ao encontro do estranho determinado pela mensagem no celular.

Sonhar o futuro contém certa dose de imprevisibilidade.

No amanhã não tomou café na costumeira padaria, onde distribuía sorriso e simpatia. Não sei dizer se será pensada amanhã.
O filho pequeno, amanhã será criado pela avó entristecida de tristeza do vazio do ontem.
O sonho sonhado ficará perdido na gaveta do particular.

Um corpo nu de mulher é encontrado em um hotel barato, cheirando cigarro barato, corpo morto e vazio de futuro, ao lado de um copo de vodka quente pelo passar das horas.
Ninguém ficou sabendo do sonho sonhado.
Ninguém sabe... Ninguém viu...

Amanhã, o corre corre do cotidiano põe, mecanicamente, o vazio particular de cada engrenagem viva a funcionar incessantemente em direção ao futuro.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

terça-feira, 18 de setembro de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: UM SORRISO



Chegou meio sem jeito, desajeitado assim que sempre foi, para um primeiro encontro estranho aos dois.
Sente-se sem lugar. Não ocupa espaço. Não se reconhece em tribo alguma do lugar que circula. Não é de "esquerda", não é de "centro", não é de "direita". A pré-determinação do extremo o incomoda, não reconhece sentido algum nisso, apenas discussões rasas, que não o convencem, apesar da dificuldade em definir-se. Sente vergonha...
Chega assim, de ombros caídos, curvando-se sobre si, em rascunho de "perdedor".

No primeiro encontro, estranho aos dois, vai se encontrando na cadeira, o corpo se encaixando melhor, revelando um jovem alto.
A conversa torna-se despretensiosa: música, games, política, super-heróis, e mulheres... ah mulheres... grande mistério as mulheres para ele... Fala de suas pretensões amorosas que carregam frustrações que machucam. Ele não ocupa espaço.

De quando em quando, um leve sorriso de canto de boca, ocupa o lugar da conversa. No sorriso os dois se entendem, se aproximam. Não se sabe ao certo o que revela, mas o sorriso tem um tom de aproximação, de "bem perto". No sorriso dele os dois se espantam, se surpreendem.

Sai relaxado da conversa. O sorriso de canto de boca retorna, ansioso, por ter voz, por poder ocupar espaço no segundo encontro, ainda estranho aos dois.

Não será o sorriso de canto de boca, despretensioso, a ocupar o lugar do discurso a ser ouvido?


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

sábado, 18 de agosto de 2018

KÜRZESTE CHRONIK: FERENCZI



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 28 de outubro de 1931 encontra-se a anotação: "Ferenczi".

Durante os três dias da visita de Ferenczi, os dois homens discutiram e tentaram elucidar suas crescentes divergências. Respeitado por Freud e, pode-se dizer, muito querido, Ferenczi encontrava-se bombardeado pelas críticas de Ernest Jones, que o considerava psicótico e repugnante, em função de alterações técnicas que, verdadeiramente, bagunçavam a ideia original de "transferência" - suscitando boatos sobre atuações sexuais com pacientes. 

"Estive muito com Ferenczi durante os três dias da sua estada. No primeiro dia ele estava retraído e bloqueado e teve um distúrbio intestinal correspondente; no segundo dia sentiu-se mais à vontade (relaxado) e escutou-me em silêncio enquanto eu lhe dizia mais ou menos tudo o que tinha a dizer; no terceiro dia respondeu com a bondade e a franqueza que lhe são costumeiras. Como ele não tocou em um determinado ponto, o seu distanciamento pessoal de mim, estou razoavelmente bem orientado sobe a localização do seu distúrbio. À parte dos riscos da sua técnica, lamento saber que ele esteja em um caminho não muito produtivo cientificamente. O essencial, entretanto, parece-me ser a sua regressão neuroticamente produzida. Mas com pessoas, é assim. O que se pode fazer quanto a isto?" (em carta para Eitingon)

Ferenczi era tratado como uma criança rebelde por Freud. Ocupava um lugar de destaque afetivo, mas transferencialmente, fora posto como adolescente que necessitava de um duro corretivo para voltar ao eixo do que se era esperado.
O relacionamento íntimo "maternal" com seus pacientes preocupava Freud.
Entretanto, sem perceber a ironia, era exatamente esse tipo de trâmite transferencial que envolvia a relação entre o dois homens.
Freud não conseguia dar lugar de autorização e independência à este "filho" tão querido.

Um mês depois o advertia:
"Já que você gosta de desempenhar o papel da mãe terna em relação aos outros, talvez o esteja fazendo em relação a si mesmo. Portanto você deveria escutar o lembrete do lado do pai brutal de que - tanto quanto me recordo - você não era estranho a jogos sexuais com pacientes na sua fase pré-analítica, de tal forma que poderia associar sua nova técnica ao seu velho erro. Daí ter falado de uma nova puberdade na minha carta anterior."

A técnica referida consistia em uma espécie de estreitamento afetivo com o paciente, estreitamento em excesso, e em uma análise mútua, que dava ao tratamento uma direção ativa por parte do paciente, o que acabava frequentemente desembocando em um labirinto perigoso que caminhava para fatal armadilha de atuação erótico-sexual.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.