sexta-feira, 18 de maio de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: QUANDO ABRO MEUS OLHOS, TUDO É O QUE PARECE SER



Lá, onde a prainha selvagem se constituía na perfeição da cena de paz e tranquilidade, ele sentou-se, nu, a contemplar o som das ondas do mar que o destituíam de todo o barulho interno.
Nada, absolutamente nada, entre ele e esse estado indescritível...
Sem cobrança, sem culpa, sem obrigações, sem lenço nem documento, sem porra nenhuma!!!
Sem desejo, sem pensamento, sem humano... Ser o som das ondas do mar - que, dizem, ser extremamente relaxante... Extremo.

"As acácias ainda estão perfumadas, as limeiras estão prestes a começar, pássaros pretos e cotovias estão dando voltas ou passeando, sem alto-falantes ou buzinas de carro para perturbar a paz. Pode-se ser muito feliz aqui. É claro que eu não estou." - escreve Freud para Eitingon, em meados de jun/1931, sobre a mudança para Poetzleinsdorf.

Algo invade a prainha paradisíaca, um certo incômodo...
Pequenos grãos de areia a invadir o rabo nu, o lembram de algo alarmante: "Tens um cu".
A coceira fica insuportável. Maldita fisiologia, maldita Natureza selvagem. Paz insustentável!!!

Levanta-se irritado, coçando a bunda latejante, despojando-se da pele romantizada.
E vai para o automóvel confortável, a poucos metros de onde estava...

No burburinho da Augusta, sentado em um boteco a apreciar gelada cerveja, entrevê, do outro lado da rua viva, um indigente sujo, provavelmente fedido, e, em pacificação interior, diz baixinho para si mesmo: "Não sou aquilo lá... Sou diferente dele... Sou civilizado..."
Chama mais uma cerveja e entreolha o movimento da Augusta.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

quarta-feira, 18 de abril de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: A PÁGINA PERDIDA DE J. M. BARRIE



Reza a lenda que, em passagem pela Terra Brasilis, transloucado após três caipirinhas, J. M. Barrie escreveu uma página não publicada para sua notória peça teatral "Peter and Wendy" - o que foi veementemente negado pelo escritor.

Na página herege, Tinkerbell marca, em segredo, um chá das cinco com Wendy - uma conversa entre mulheres.
Durante a conversa animada, sem a presença infantil de meninos, a fada impulsiva expõe sua vontade de transformar-se em condor e sobrevoar livremente os Andes, sem a chatice de Peter Pan, em liberdade de corpo e alma.
Wendy, mais responsável e conservadora, discorre sobre a dificuldade do Eterno Menino em acompanhar seus projetos de crescimento profissional e de seu desejo de, um dia lá na frente, paparicar os netos com histórias infantis.
E assim a conversa animada foi-se dando, entre bebericadas de chá...
Lá pelas tantas, as duas se entreolharam com cumplicidade e, em toque de mãos amigáveis, sentiram a profundidade da tentativa de fusionarem-se em uma Tinkerbell/Wendy - perfeição do feminino naquele chá das cinco.

Deitada e voando livre no divã, em meio a um choro sentido sobre ter-se de pagar um preço por cada movimento e momento vivido nessa vida de responsabilidades e liberdades, solta uma cômica e honesta gargalhada: o lenço de papel encavalou-se na saída da caixa... "Não quer sair... Travou o lenço aqui... kkkkk... Olha o que fiz com teus lenços!!!"


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

domingo, 18 de março de 2018

KÜRZESTE CHRONIK: PARRICÍDIO



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 14 de dezembro de 1930 encontra-se a anotação: "Halsmann em Neue Presse"

O Neue Freie Presse, o único periódico vienense de reputação internacional, era devorado por Freud. Moritz Benedict, o principal editor, era considerado um dos homens mais influentes da Áustria, garantindo ao jornal a excelência nas áreas da cultura e literatura.

Phillip Halsmann era um estudante que fora declarado culpado de parricídio por um tribunal em Innsbruck, em 1929. Apesar do recurso ter sido indeferido, o professor em Jurisprudência da Universidade de Viena, Dr. Josef Hupka, publicou um longo artigo no Neue Presse, fazendo campanha pela absolvição de Halsmann.
Freud fora consultado por Hupka sobre o caso em questão, o que gerou "A perícia forense no processo Halsmann". O texto de Freud alertava contra o uso descuidado da Psicanálise no contexto forense, concluindo - utilizando o caso Halsmann como exemplo - que a Psicanálise não poderia, nos tribunais, ser mais do que uma prova indigna de confiança (a existência e a atuação do complexo de Édipo no suspeito, neste caso).
Freud citou a condenação injusta de Dmitri Karamazov e o aforismo de Dostoievsky - que a Psicologia é uma faca de dois gumes.

A Psicanálise teria muito a oferecer à ordem idealizada pela Justiça. Infelizmente, como em tantas outras áreas, o diálogo mostras-se incompatível, portanto infrutífero.
O magistrado da Justiça acaba, ao final, tapando as orelhas ao complemento em que a Psicanálise foi chamada a participar.
A Lei dos Homens, tão importante para a manutenção de uma sociedade civilizadamente estruturada, parece ter a pretensão de apenas punir, ao invés de procurar e reconhecer as causas da dita infração.
Além do mais, aparentemente, os Senhores e Senhoras da Justiça, atuais caricaturas olímpicas da Lei e da Ordem, demonstram uma lógica um tanto quanto absurda: a de não olhar para o próprio umbigo, antes de julgar o umbigo do outro.

O parricídio consiste no ato de uma pessoa matar seu próprio pai.
Talvez, um certo sadismo de Poder leve os Doutores e Doutoras da Jurisprudência, acreditarem que, exercendo poder absoluto sobre o outro, cheguem ao lugar de Deus sem "matar" (e reconhecer a morte simbólica, é óbvio) o próprio pai - o que, ultimamente, vem, inclusive, tornando-se "chiste" de mau gosto...
Talvez...

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.