sexta-feira, 19 de julho de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: RELIGIÃO



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 03 de setembro de 1933 encontra-se a anotação: "Laforgue".


Esta foi a última visita do psicanalista francês Laforgue, registrada no diário. Talvez um dos tópicos da conversa tenha sido a exclusão dos imigrantes alemães da Sociedade Psicanalítica Francesa. Na época, os franceses recusavam-se a aceitar médicos estrangeiros, como membros da sociedade, se estes não tivessem uma licença francesa. A princípio, não faziam objeção aos analistas leigos estrangeiros, mas aparentemente preferiam esperar um pouco antes de aceitá-los. Este procedimento ia de encontro às resoluções adotadas no Congresso de Oxford de 1929 e contradizia as aspirações internacionalistas da Associação Psicanalítica Internacional.


Atualmente, seguindo o desejo de Freud, a Psicanálise conseguiu sair do domínio médico e avançar campos estrangeiros à Medicina. Não há mais sentido em se discutir a "análise leiga", a não ser pelo fato (bastante grave) da existência de formações duvidáveis.
Analisar não é uma brincadeira conceitual.
Analisar é estar apto a mergulhar verticalmente no absurdo abissal do humano, sem pudor.

Jones e Anna Freud estavam irritados com a estreiteza da atitude francesa. Anna contrastou esta exclusão dos imigrantes com a imediata aceitação deles pelos ingleses e também citou uma lista de médicos estrangeiros aceitos pelas sociedades alemã e austríaca que tinham apenas uma licença estrangeira (Radó, Alexander, Harnik, Lampl-de Groot).

O estrangeiro. Para além de uma simples questão mercadológica territorial, devemos compreender que o analista é um estrangeiro, e nunca bem vindo.
Hoje é discussão a questão dos refugiados, infelizmente de uma forma rasa e horizontal. O refugiado, estrangeiro, vai de lá pra cá, empurrado, desumanizado pelo hipócrita discurso de que alguém se importa. O século XXI talvez seja o século do narcisismo desenfreado. O tempo dirá...

Mas em 1938 a situação tinha mudado: quando Anna veio para a Inglaterra deparou-se com o fato de ter que regatear com Jones até para incluir a vinda de apenas alguns dos analistas do grupo vienense.

O analista não pechincha...
A guerra política não deveria existir. Infelizmente existe. A discussão madura e construtiva é posta de lado, em prol de Poder.
Diz um velho ditado: me digas com quem tu andas, e te direi quem és.

No início de 1937, Laforgue visitou Freud mais uma vez. Naquela ocasião tentou convencê-lo a sair da Áustria. Freud respondeu: "Os nazistas, não tenho medo deles. Apenas me ajudam na minha batalha contra meu grande inimigo". Quando, surpreso, Laforgue perguntou quem era este, Freud respondeu: "Religião, a Igreja Católica".

Religião. Freud ficaria completamente decepcionado ao ver a Psicanálise despedaçada em Igrejas - um catolicismo próprio.
Ao ser capturado por um sistema religioso psicanalítico, o analista engessa, e, viralizado, perde a audição, perde a capacidade de ouvir. Passa a ser uma trama e um drama de conceitos vazios, repetitivos. Não há mais construção. Não há mais descobrir. Triste destino.
Há de se lutar contra...


OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.


domingo, 19 de maio de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: ENTRE A BUSCA DE UM LUGAR (IM)POSSÍVEL



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 15 de maio de 1933 encontra-se a anotação: "Ernst partiu".


Enquanto Oliver tinha ido a Paris à procura de uma nova residência, Ernst foi a Londres para preparar uma moradia para sua família que, por ora, permanecera em Berlim. Em meados de junho, com a ajuda de conhecidos, entre eles Ernest Jones, já estava em vias de aí se estabelecer. Jones escreveu para Freud: "Conseguimos ajudar Ernst nos seus primeiros passos e ele tem correspondido à sua reputação de um Glückskind (homem de sorte). Você não deve se preocupar com o futuro dele. É um prazer tê-lo conosco na Inglaterra, embora eu fique pensando se esta sua personalidade tão vivaz não se adaptaria melhor à França".

1. Busca-se um lugar de pertença. Uma busca que, quando acredita-se terminada enfim, mostra-se apenas como alhures angustiante. Ter um "lugar" para atracar é intrínseco ao buscar incessantemente. Uma posição, uma tribo, uma linguagem que seja, a nos colocar em sensação confortável de dividir o engodo - saudável - de voltarmos ao que se perdeu sem nunca se ter tido, o nirvana do não sentir-se Eu, sozinho. Sentir-se Eu - esta labuta cotidiana de fincar bandeira no vazio. Às vezes, o Eu, esta representação em primeira pessoa - fundadora de todo movimento defensivo -, aplaca angústias do impensável, do impossível. Um eterno trânsito entre possíveis.

2. O "homem de sorte" não existe, é apenas fruto da fantasia de destino, encoberta pela rotina cotidiana - esta função tão cara, tão importante.

3. "Corresponder" é um verbo perigoso - obrigação de ter que, independente do que se deseja... se é que se deseja.

4. O que é melhor para o outro que não eu, é uma maneira sutil e ardilosa de se ter controle sobre o avesso de quem se preocupa. Que, primeiro, olhe-se para o próprio umbigo - que só revela vísceras -, antes de palpitar (ou seja, dominar), que tem por objetivo tornar coisa aquilo que é sujeito.

5. Entre Londres e Paris há Ernst em Berlim, tentando aplacar o traumático de um lugar não-lugar, revelado liquefeito pelo avanço nazista, por si só traumático.


OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

KÜRZESTE CHRONIK: O BRINCAR




Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 03 de abril de 1933 encontra-se a anotação: "Parto difícil de Jofi".


Jofi, a Chow Chow (presente de Ana), havia tido um filhote, anteriormente, que morrera. Desta vez ela "teve um parto perigoso, mas agora está bem e orgulhosa de seus dois filhotes que mais parecem uns ratinhos". Foram chamados de Fo e Tattoun; em julho, Freud escrevia que eles estavam "quase do tamanho da mãe, muito alegres e prontos para qualquer brincadeira".

Em dias de penúria e opressão, de angústia que aperta o peito, como nestes dias em que nos encontramos, dias de liberdade sem liberdade, se faz importante e necessário termos, e encontrarmos, brechas possíveis, frestas de um oásis, um lugar qualquer que nos blinde do excesso do lá de fora.
Talvez, a saúde mental deva conter pitadas, na medida certa de cada um, de alienação.

Freud, sofrendo das dores das tentativas mal-sucedidas das próteses, sofrendo das dores do desabamento da Civilização mal-sucedida, encontrava no incondicional oferecido pelos cachorros da família, momentos de paz e ludicidade, momentos raros na vida do professor vienense.

Parto difícil o de encontrar brechas para além de um sobreviver como autômatos, inseridos no não-pensamento das bandeiras ideológicas de nosso tempo. Parto difícil o de encontrar um viver... apenas.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.