terça-feira, 18 de dezembro de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: CONSIDERAÇÕES SOBRE UM VAZIO





Uma meticulosa educação em um rosto esvaziado de expressão.

1. Vai para lá porque tem de ir. Simplesmente vai. Não lhe importa o preenchimento do tempo - em verdade não se ocupa em pensar sobre isso. Sempre o mesmo tédio, nem inquietante, nem irritante, nem nada, apenas o mesmo tédio desde sempre.

2. Faz cumprir rigorosamente o que mandam, pois não manda. Não lhe cabe mandar - um verbo sem sentido possível -, apenas faz, executa.

3. Não possui sonhos e projetos, posto que, sendo seus - o que já não encontra brecha de sentido -, automaticamente tornam-se agressões aos que mandam.

4. Tão protegido que foi, transformou-se em corpo que não deseja. Mandam, ele cumpre.

5. Uma projeção mortífera do desejo de quem o protege em excesso. Um mausoléu vivo e andante, reparador de objetos perdidos de quem manda para proteger. Fotografia da perfeição ilusória de quem o fez, que não se fez.

Fazer-se é arrebentar a redoma protetora de quem manda.

Difícil sustentar o lugar analítico de quem não manda...


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

domingo, 18 de novembro de 2018

KÜRZESTE CHRONIK: MARTHA DE BERLIM



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 19 de abril de 1932 encontra-se a anotação: "Martha de Berlim".

A depressão econômica e as ameaças políticas marcaram as impressões de Martha. Freud escreveu: "Minha esposa apreciou muito a sua estada em Berlim embora nem tudo que viu tenha sido agradável. Os tempos são terríveis e não há nenhuma garantia de um futuro suportável".

A Grande Depressão, também conhecida como Crise de 1929, foi uma grande depressão econômica que teve início em 1929, e que persistiu ao longo da década de 1930, terminando apenas com a Segunda Guerra Mundial. A Grande Depressão é considerada o pior e o mais longo período de recessão econômica do século XX. Este período de depressão econômica causou altas taxas de desemprego, quedas drásticas do produto interno bruto de diversos países, bem como quedas drásticas na produção industrial e nos preços de ações, levando ao colapso praticamente todo o medidor de atividade econômica.
O Partido Nazista crescia assustadoramente, e a figura política de Hitler se fazia notar, apoiado por grupos de financistas e industriais, bem como pelo carismático e inflamado discurso, que o colocava no lugar idealizado de Salvador diante da desesperança e do desespero.

Na ausência de Martha, o alfaiate de Freud, Stefan, trouxera um novo terno. Freud escreveu para ela: "O novo terno feito por Stefan é mais uma vez perfeito, vou perguntar se ele faz próteses também".

O novo terno perfeito seria uma boa representação para a preocupação de Freud, que acreditava em um mundo melhor no pós Primeira Guerra. A sequência de próteses imperfeitas o incomodava profundamente... O bom humor, circunstancial como sempre, ajudava nesses momentos.

Atualmente, o humano encontrou arma mais moderna para empoderar seus exércitos - o mundo encontra-se em Guerra Comercial.
A depressão econômica, imersa no psiquismo do indivíduo, cria o "nós contra eles", gerando patologias não discutidas nos programas de TV, patologias da desesperança e do desespero que se alastram feito tumor, levando os homens ao retorno do não-civilizado.
A negação da repetição é o estancamento da possibilidade de elaborar-mo-nos enquanto humanos.
Se é que temos jeito...


OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: CHINATOWN



Acordou cedo, inspirada, como sempre, pelo amanhã, pela concretização do sonho sonhado de seu futuro. Seu sonho particular, seu futuro particular.
Tomou um banho rápido, deixou o filho pequeno com a mãe, e foi para os estudos, os andaimes de seu "mudarei de vida".
Na costumeira padaria, toma seu café, pensando nas estratégias do que foi sonhado como lugar no amanhã, pensada sob olhares de simpatia atraídos por sua forma simpática de ser.
Espevitada, com um sorriso cativante, é dessas pessoas em que a vida parece ter soprado duas vezes, colorindo o cotidiano de cores fortes.

Todo mundo tem segredos bem guardados no quarto secreto de Barba Azul. Ela também os tem.

Em determinada hora, arruma-se, determinada ao seu futuro particular. Um batom apenas para marcar a forma da boca de boneca, cabelo solto, vai ao encontro do estranho determinado pela mensagem no celular.

Sonhar o futuro contém certa dose de imprevisibilidade.

No amanhã não tomou café na costumeira padaria, onde distribuía sorriso e simpatia. Não sei dizer se será pensada amanhã.
O filho pequeno, amanhã será criado pela avó entristecida de tristeza do vazio do ontem.
O sonho sonhado ficará perdido na gaveta do particular.

Um corpo nu de mulher é encontrado em um hotel barato, cheirando cigarro barato, corpo morto e vazio de futuro, ao lado de um copo de vodka quente pelo passar das horas.
Ninguém ficou sabendo do sonho sonhado.
Ninguém sabe... Ninguém viu...

Amanhã, o corre corre do cotidiano põe, mecanicamente, o vazio particular de cada engrenagem viva a funcionar incessantemente em direção ao futuro.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).