segunda-feira, 20 de abril de 2020

KÜRZESTE CHRONIK: O FORASTEIRO



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 14 de agosto de 1935 encontra-se a anotação: "Ernst com Lucian".


Na sua visita anual a Viena, desta vez Ernst trouxe com ele seu filho do meio, Lucian, que agora estava com 13 anos de idade (seus dois irmãos já tinham visitado Freud separadamente, Stephan em 1932 e Clemens em 1933).
Durante seus últimos anos em Berlim, Lucian foi muito afetado pelo crescente anti-semitismo. Mais tarde comentaria que foi por volta de 1929 que se deu conta de que era judeu. "De repente, você se tornava um forasteiro, alguém a ser perseguido. Tornei-me um rebelde, é claro, e ressentido. Às vezes desaparecia de casa e não dizia a ninguém onde estava. Eu era muito sigiloso e deixava meus pais enfurecidos". Mas lembraria de seu avô com afeto, como "sempre muito bom, muito gentil e muito modesto".
Lucian veio a se tornar um dos artistas plásticos de maior destaque na Inglaterra. Assim, ele cumpriu uma antiga ambição de seu pai, Ernst, de ele próprio se tornar um artista.
O paciente de Freud Sergei Pankejeff (o "Homem dos Lobos") que também pintava, lembrava ter ouvido que "seu (de Freud) filho mais novo também pretendia ser um pintor, mas deixou esta ideia de lado e se voltou para a arquitetura. 'Eu só escolheria ser pintor' falou para seu pai, 'se eu fosse muito rico ou muito pobre'. As razões para esta decisão eram que ou a pintura deveria ser considerada um luxo e levada de uma forma amadorística ou então deveria ser perseguida a sério e ter em mente a realização de algo bastante significativo. Ser um medíocre neste campo não traria nenhuma satisfação. A pobreza e a 'força da necessidade' por trás dela serviriam como afiadas esporas instigando a pessoa para realizações notáveis. Freud colheu bem a decisão de seu filho e achou que seus argumentos eram bem fundados" (Muriel Gardiner, 1973).

Lucian Michael Freud (Berlim, 08 de dezembro de 1922 - Londres, 20 de julho de 2011) foi um pintor nascido na Alemanha e naturalizado britânico em 1939.
Sua obra "Benefits Supervisor Sleeping", de 1995, foi vendida por 33,6 milhões de dólares, o equivalente a 21,7 milhões de euros, em maio de 2008, pela Christie's de Nova Iorque. Com esse valor, tornou-se a obra mais cara de um artista vivo já vendida.

O legado filogenético, tal qual destino geracional transferido, verdadeira marca d'água traumática, do Pai ao Filho, representa a ambiguidade de Ódio e Amor que, na medida certa, produz notória Criatividade.
Mas a marca do traumático permanece, para sempre, na tentativa de superação do Pai - o que põe, no absurdo do controverso, Eros em movimento.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

sábado, 4 de abril de 2020

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: NICOLAS ABRAHAM



NICOLAS ABRAHAM, 1919-1977, foi um psicanalista francês. De origem judeu-húngara, nasceu em Kecskemet e emigrou para Paris em 1938. Teve uma formação filosófica marcada pela fenomenologia de Husserl. Falava várias línguas. Depois do primeiro casamento em 1946, do qual teve dois filhos, tomou como companheira Maria Torok, também de origem húngara. Analisado, como ela, por Bela Grunberger, no seio da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), logo revelou-se como dissidente e seu tratamento didático não foi homologado. Nunca se tornou membro da SPP, limitando-se a ser filiado. Em 1959, iniciou com o filósofo Jacques Derrida uma sólida amizade, fundada na paixão pela filosofia e em uma certa maneira de analisar os textos freudianos.
Foi com a publicação, em 1976, do Verbier de l’Homme aux loups, redigido com Maria Torok e prefaciado por Derrida, que se tornou célebre. Depois de Muriel Gardiner, comentou o caso do Homem dos Lobos, mostrando o poliglotismo inerente a toda essa história. Ao russo, ou língua materna, ao alemão, ou língua do tratamento, e ao inglês, ou língua da ama do paciente, os autores acrescentaram uma quarta língua, o francês, que lhes permitia sublinhar que o Eu clivado do paciente comportava uma “cripta”, lugar de todos os seus segredos inconscientes. Essa teoria da cripta enfatizava o delírio do Homem dos Lobos e o caráter necessariamente delirante e polissêmico da própria teoria clínica.

OBS.: Esta biografia foi redigida por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

sexta-feira, 20 de março de 2020

KÜRZESTE CHRONIK: OS QUATRO ISOLADOS



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 09 de junho de 1935 encontra-se a anotação: "Conferência de Quatro Nações em Viena".


A conferência, que começara no dia anterior, reuniu analistas da Áustria, Tchecoslováquia, Hungria e Itália. Teve como propósito criar um espaço para os grupos isolados trocarem ideias. Foram programadas quatro conferências, sobre temas de interesse específico: o problema da transferência, análise de caráter, psicologia do ego e a pulsão de morte. Cada um dos grupos nacionais escolheu um tema que foi seguido de debates. Também havia sido planejada uma noite para a discussão de questões organizacionais como análise didática e supervisão. Robert Waelder proferiu a palestra em nome dos vienenses sobre a psicologia do ego.

As quatro nações em questão encontravam-se isoladas pelo avanço do nazismo. Apesar da produção de conhecimento, encontravam-se sem a possibilidade de troca e discussão de ideias - castradas no diálogo.
Freud, apesar de incapacitado de participar mais diretamente, defendeu, nos bastidores políticos da instituição psicanalítica internacional, a realização deste encontro dos "isolados".

Nem sempre, ou quase nunca, por ignorância ou preconceito, incluindo o desconhecimento, tem-se lembrança ou preocupação pelos castrados de diálogo. A política e a economia não encontram espaço nas agendas para dar atenção à "nações isoladas" (aqui como metáfora). O discurso é belo, a ação é pífia.
Os dias atuais que o digam...

Isolados somos todos.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.