sexta-feira, 17 de março de 2017

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: NESTE CORPO EM QUE HABITO



Ali, onde o Pai desautoriza a amplitude da experiência, resta o reino pequeno do corpo, habitado pelo infantil odioso.


"Que sabes fazer?"
De pé, braços estendidos para mim, golfando ofegante ódio em lágrimas, responde:
"Nada..."

Aparência impecável. Corpo bem esculpido.
Sem nunca ter sido empurrado para a experiência de viver a própria vida, se foi aprisionando na imagem corporal perfeita, misto de medo e acomodação.
Sim... Tem tudo o que quer.
Sim... Não tem a si.
Nas aventuras plásticas, quando na solidão se olha no espelho a refletir uma imagem sem alma, sente muito medo, muito ódio. Tristeza mesmo, que ocupa um vazio que o corpo não preenche.
O Espelho Meu responde: "És Nada..."

O corpo tornou-se um Dry Martini fascinante - uma base de ridículo com um fio certo de asco.

No fundo daquele corpo perfeição, se esconde, ali, quietinho e acanhado, o infantil que odeia, odeia, odeia...

Uma brecha possível se faz presente. No presente da sala de análise vai o ódio, explodindo, espalhando-se feito bactéria, a acordar o corpo para a vida própria da experiência sem medo.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: TATUAGEM



"Quero ser uma arte viva e temporal, tal qual a própria Vida."

Se teu olhar tivesse investido meu corpo, poderíamos, minha pele que se fez por teu olhar, conquistar o Mundo. Mas me desprezaste em teu olhar, que só vê teu próprio umbigo... Olhar Absoluto...

Sem que tu soubesses, fostes buscar na Polinésia do Oceano Pacífico, o esboço que percorreria minha pele em traços vândalos a buscar um olhar... Teu olhar nos olhar dos outros... Eu sem ti... Absoluto.

Replico, portanto, sem o saber, é verdade, o destrutivo de teu olhar que habita minha pele.

Que eu exploda, então, no Instagram, sob os olhares que valorizam os traços e cores e absurdos e tudo que contornam minha pele e dão contorno ao que posso ser, idealizado no Nada de teu olhar vazio que, se tivesse investido minhas vísceras, ter-se-ia criado um Alexandre que embalaria o Mundo.

Mas teu olhar fez mundo só pra ti. 
Portanto, agora te digo:
Minha pele é meu cárcere e minha liberdade a construir para sempre meu Mundo que nunca existirá... Nunca... Sem teu olhar que faltou.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: MASSA PODRE



Ele é o culpado. Culpado em tolher minha vida. Culpado pela castração à qual fui submetida. Culpado por esse meu rosto amargo, pois que a amargura se estampa em minha face.
Ele precisa ser culpado. Não suportaria se ele não o fosse.
Há de se acreditar nisso, mesmo que inventado...

Fui criada assim, deste jeito, sem jeito para nada além da cozinha.

Não suportaria descobrir-me invejosa. Não suportaria ver a doença crescendo junto com minha infância de infante castrada.
Não suportaria enxergar-me certinha em excesso.
Não suportaria a dor de minha falta de movimento, já que não sei movimentar-me. Ele sabe movimentar-se. Tenho ódio de movimento.
Não suportaria olhar-me, hoje, no espelho, e este objeto sombrio me revelar a responsabilidade da amargura que revela meu rosto. Estas rugas insuportáveis, este corpo insuportável. A amargura é minha religião secreta, minha hóstia de todo dia.

E o acuso todo santo dia acusatório. Tem de ser assim que assim me escondo de mim mesma.


SIRVO AMARGA
TORTA
O JANTAR


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).